Por Cristina Indio do Brasil | 03/10/2026 | Rio de Janeiro
A plataforma de monitoramento Sentinela identificou 13.000 comentários ofensivos com alvo definido dirigidos a candidaturas LGBT+ desde o início do período eleitoral. O levantamento selecionou 307.185 publicações em contas que puderam ser monitoradas dentro de um universo superior a 1 milhão de interações no Instagram.
Para classificar cada comentário, a Sentinela avaliou quatro dimensões específicas:
- presença de violência;
- identificação do alvo;
- existência de componente LGBTfóbico;
- se o componente atingia diretamente a candidatura monitorada.
A metodologia combina coleta automatizada, classificação e o uso de inteligência artificial generativa, desenvolvida pelo Instituto Plena Cidadania (IPC), organização responsável pelo projeto VoteLGBT. Além do mapeamento de cada ataque, o estudo analisou recorrência e sinais de atuação coordenada entre perfis.
Dos 13.000 comentários com alvo definido, foram identificadas mais de 11.000 contas diferentes envolvidas, o que comprova repetição das agressões. Um grupo de 224 perfis concentrou parte da atividade e foi responsável por 1.718 publicações hostis.
“Quando tem a mesma mensagem repetida por 63 contas em um intervalo muito curto de tempo, como a gente verificou contra uma candidatura de Goiás, a gente tem forte indício de que isso foi coordenado. Isso pode ser uma combinação de pessoas ou automatizada”, afirma Gui Mohallem, da direção executiva do Instituto Plena Cidadania.
Critérios para evitar falsos positivos
A Sentinela adota critério conservador na classificação e não se limita à presença de palavras específicas: casos ambíguos são excluídos da contagem para reduzir falsos positivos. “A plataforma permite enxergar uma violência que acontece em uma escala e velocidade que nenhum monitoramento manual conseguiria acompanhar”, afirma Alciana Paulino, líder de inteligência do IPC.
Quem são os alvos
O monitoramento revela que 92,7% das agressões registradas tiveram como alvo candidaturas de mulheres LGBT+; em 83,6% dos casos, as vítimas eram candidaturas negras LGBT+. O padrão, segundo especialistas do IPC, indica que a violência é também de gênero e racializada.
Gui Mohallem ressalta ainda o aspecto legal e de financiamento: no Brasil, LGBTfobia é crime e o financiamento de campanha tem origem pública. “O dinheiro público vai continuar sendo usado para financiar crimes na internet? É a pergunta que a gente faz”, declara.
Em 23 de setembro, o Instituto Plena Cidadania protocolou uma notícia-crime na Justiça Eleitoral contra três candidatos a deputado federal por ataques discriminatórios dirigidos a deputadas federais candidatas à reeleição, que teriam tentado desqualificá‑las com base na identidade de gênero.
Formas de agressão e obstáculos à investigação
A Sentinela recebe também materiais enviados por dirigentes políticos, como prints de mensagens por inbox e e‑mail, e registros de outros episódios de violência. Segundo o instituto, ataques com linguagem de ódio mais extrema e ameaças de estupro ou morte frequentemente chegam por provedores localizados em países sem acordo de cooperação com o Brasil, o que dificulta a identificação dos autores pelas autoridades.
“A Polícia Federal não consegue descobrir quem é o autor porque o servidor está em um país que não tem acordo com o Brasil. São covardes as pessoas que fazem isso”, afirma Mohallem.
Apoio psicológico e expansão regional
Além do mapeamento, a Sentinela oferece apoio psicológico por meio do canal Cuida Mais, com sessões de terapia sigilosas e gratuitas. O atendimento é realizado por uma clínica parceira formada por profissionais LGBT e a anonimização dos cadastros é adotada logo após o registro.
O monitoramento já começou a se expandir para além do território brasileiro. A Sentinela negocia parcerias que podem resultar em implementações na Argentina e no México em 2027, com o objetivo de identificar e enfrentar a violência política na América Latina. Para o IPC, a articulação regional é importante diante da atuação transnacional de grupos anti‑direitos e antigênero.
Os dados da Sentinela seguem sendo atualizados ao longo do processo eleitoral, com o propósito de subsidiar medidas de proteção a candidaturas e permitir ações judiciais e administrativas quando for o caso.
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via Agência Brasil
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