Ligue 180 registra 1.564 denúncias de violência política contra mulheres até agosto de 2026

Ligue 180 registra 1.564 denúncias de violência política contra mulheres até agosto de 2026

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Por Daniella Almeida | Brasília | 01/10/2026 – 19:12

Entre janeiro e agosto de 2026 a Central de Atendimento à Mulher — Ligue 180 contabilizou 1.564 denúncias relacionadas a violência política contra mulheres, que correspondem a 1.581 violações identificadas. A diferença se deve ao fato de que uma única denúncia pode envolver mais de um tipo de agressão praticada pelo mesmo autor.

Quem são as vítimas

Os registros indicam que mulheres pretas e pardas foram as mais afetadas: 842 denúncias (mais de 53%). Mulheres brancas correspondem a 590 casos (37,72%) e as demais raças somam 132 denúncias (8,44%).

Geograficamente, os estados com maior número de queixas no período foram São Paulo (430), Rio de Janeiro (260) e Minas Gerais (149). Também foram registrados casos na Bahia (89), Rio Grande do Sul (62), Paraná (61) e Santa Catarina (56).

Formas de agressão e crimes relatados

As manifestações de violência política apontadas nas denúncias variam desde discriminação por gênero, raça ou etnia e desigualdade de tratamento, até difamação, divulgação de informações falsas e desqualificação pública de candidatas e ocupantes de cargos. Entre as condutas mencionadas estão:

  • Interrupção sistemática da fala em ambientes políticos;
  • Questionamentos sobre escolhas de vida privada; julgamento por aparência física e modo de vestir;
  • Ameaças de morte e de estupro;
  • Ataques racistas e transfóbicos;
  • Vandalização de materiais de campanha;
  • Coação, intimidação, constrangimento e tentativas de deslegitimar o mandato ou a candidatura;
  • Responsabilização judicial com finalidade de silenciar ou desestimular a atuação política.

A titular da Secretaria Nacional de Articulação Intersetorial e Interfederativa e de Participação Política do Ministério das Mulheres relacionou o crescimento desse tipo de violência a um contexto mais amplo de misoginia e de aumento da violência contra mulheres, incluindo episódios de violência doméstica e feminicídio. Ela também apontou a disseminação de ideias transnacionais de extrema direita que questionam direitos políticos conquistados, citando a tese do “voto familiar”. Vale lembrar que o direito de voto feminino no Brasil foi obtido em 1932.

Comparação com 2025 e interpretação dos dados

No ano anterior, 2025, a Central de Atendimento registrou 2.310 denúncias de violência política contra mulheres, que envolveram 2.334 violações, em um total superior a 155,1 mil denúncias de todos os tipos recebidas naquele ano. Considerando apenas o intervalo de janeiro a agosto de 2025, foram 1.649 registros de violência política.

Segundo a secretaria, a diminuição pontual no número de registros entre os períodos não indica necessariamente queda da ocorrência do problema no país, pois há possibilidade de subnotificação — muitas mulheres ainda desconhecem que o Ligue 180 é um canal para denunciar violência política.

Resposta institucional e avanços na apuração

O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) considera a violência política de gênero um dos principais obstáculos à participação e permanência das mulheres na política. Em 2026 o volume de processos judiciais relacionados ao tema aumentou de forma expressiva: de 15 procedimentos em 2022 para 177 este ano, dos quais 26 têm relação direta com a campanha eleitoral de 2026.

O levantamento do Ministério das Mulheres integra o Plano de Ação do Protocolo de Enfrentamento à Violência Política Contra as Mulheres. O protocolo define diretrizes para prevenir, registrar, acolher, encaminhar e acompanhar os casos por meio do Ligue 180, além de promover atuação integrada entre instituições do sistema de Justiça e a rede de proteção às mulheres.

O atendimento previsto pelo protocolo garante sigilo, orientação sobre direitos, encaminhamento aos órgãos competentes e medidas para interromper as agressões e proteger as vítimas. O instrumento é direcionado a candidatas, mulheres eleitas ou ocupantes de cargos públicos, lideranças comunitárias e sociais, defensoras de direitos humanos, representações de movimentos sociais e outras mulheres com atuação política ou pública, mesmo que não tenham candidatura ou mandato.

Exemplos de agressões com risco à vida

Casos emblemáticos citados em levantamentos e processos mostram que as agressões podem ir além do assédio e configurar risco real à integridade física e à vida. Entre episódios que ganharam repercussão estão o assassinato da vereadora Marielle Franco, em março de 2018; a agressão contra a então deputada estadual Isa Penna, em dezembro de 2020; ofensa pública dirigida à deputada Maria do Rosário em 2014; e a retirada da escolta armada da deputada Talíria Petrone em julho de 2026, mesmo sob ameaça.

Também foram lembradas interrupções e rótulos depreciativos impostos a senadoras durante sessões parlamentares, como ocorrências na Comissão Parlamentar de Inquérito da covid-19, em 2021.

Onde denunciar e buscar orientação

Mulheres que sofram violência política e pessoas que tenham conhecimento de casos podem recorrer a diversos canais institucionais:

  • Central de Atendimento à Mulher — Ligue 180: serviço gratuito, sigiloso e humanizado, 24 horas. Denúncias por telefone (180), WhatsApp (61) 9610-0180, e-mail central180@mulheres.gov.br e videochamada em Libras;
  • Ouvidoria das Mulheres do Conselho Nacional do Ministério Público;
  • Sala de Atendimento ao Cidadão da Procuradoria-Geral Eleitoral / Ministério Público Federal;
  • Ouvidoria Nacional da Mulher do Conselho Nacional de Justiça (CNJ);
  • Polícia Federal — canal Comunica PF — e delegacias estaduais de polícia;
  • Grupo de Trabalho Mulheres da Defensoria Pública da União (DPU) para assistência e orientação jurídica;
  • Em caso de emergência, acionar a Polícia Militar pelo telefone 190.

O protocolo e as orientações buscam ampliar a proteção dos direitos políticos das mulheres e a responsabilização dos autores das violências, além de incentivar o uso dos canais oficiais para registro e acompanhamento dos casos.

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via Agência Brasil

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