Por Rafael Cardoso — Rio de Janeiro. Publicado em 06/10/2026 às 11:46.
Um levantamento do Observatório das Big Techs, coordenado pelo NetLab da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), identificou circulação de propaganda eleitoral remunerada e recomendações de conteúdo de candidatos em plataformas digitais no domingo 4 de outubro, dia do primeiro turno das eleições de 2026.
Proibição e metodologia
O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) proíbe a veiculação paga ou impulsionada de propaganda eleitoral na internet desde 48 horas antes até 24 horas depois da votação. A norma também exige que mecanismos de recomendação das plataformas excluam canais e perfis de candidatas e candidatos informados à Justiça Eleitoral, salvo exceções previstas em lei.
O monitoramento do NetLab combinou buscas manuais e processos computacionais a partir de termos relacionados às candidaturas, consultas às bibliotecas de anúncios públicas das plataformas e extração de dados via API — recurso que acessa os registros oficiais de publicidade das redes.
Resultados por plataforma
Meta (Instagram, Facebook, WhatsApp, Messenger e Audience Network): foram identificados 568 anúncios que teriam sido veiculados de forma irregular durante o período analisado. Entre essas peças, seis simulavam comunicações do TSE e divulgavam, falsamente, a possibilidade de votar remotamente pelo celular ou de casa. Algumas dessas campanhas direcionavam usuários a sites que solicitavam o CPF para iniciar a suposta votação.
Kwai: o relatório aponta 18 anúncios eleitorais ativos no dia da votação e quatro classificados como “em pausa” na biblioteca da plataforma; três desses pausados já haviam circulado entre 1º e 3 de outubro, no período de restrição. Além disso, foram achadas 45 peças cuja data final de veiculação constava estendida para 4 de outubro, vinculadas a dez páginas de candidaturas. O NetLab informa, porém, que divergências entre os dados exportados pela plataforma e o que é exibido na biblioteca impediram confirmação plena de todos os casos.
Google: foi detectado um anúncio identificado anteriormente em 3 de outubro que permaneceu ativo na infraestrutura de publicidade da empresa de forma irregular.
Recomendações de vídeos
O estudo também acompanhou sistemas de recomendação. Entre 3 e 4 de outubro, o TikTok teria recomendado 18 vídeos de sete candidatos, e o YouTube teria sugerido 17 vídeos de seis candidatos. No Instagram não foram encontradas recomendações de vídeos produzidos por contas oficiais de candidatos no período monitorado.
Limites de transparência
O NetLab destaca que a falta de padronização e divergências nas informações fornecidas pelas big techs dificultam a fiscalização e a atribuição de responsabilidades. Na Meta, por exemplo, anúncios marcados como inativos na interface pública surgiam simultaneamente em listagens de anúncios ativos obtidas por API. Situações semelhantes foram observadas no Kwai. Já Google, LinkedIn e TikTok oferecem, segundo o estudo, dados considerados insuficientes para um acompanhamento sistemático mais robusto.
Posicionamento das empresas
As plataformas procuradas pelo levantamento apresentaram respostas sobre os fatos apontados. A Meta afirmou estar comprometida com a proteção do processo eleitoral e disse que a amostragem do relatório não reflete a escala do trabalho de integridade que realiza. O Kwai informou que aguarda acesso aos conteúdos mencionados para avaliação, reiterou compromisso com a legislação brasileira e declarou ter mantido operação especial de moderação durante o período eleitoral, com restrição ao upload de novos criativos eleitorais desde 1º de outubro.
O TikTok afirmou que proteger a integridade do ambiente digital nas eleições é prioridade, que trabalha em parceria com o TSE e que, entre junho e setembro de 2026, removeu 348.963 vídeos no Brasil por violações às suas políticas de integridade cívica e eleitoral, desinformação e conteúdos gerados por IA. O Google disse que, desde 2024, suas políticas do Google Ads proíbem anúncios políticos no Brasil, que aplica essas regras e age diante de violações; segundo a empresa, apenas um anúncio foi identificado neste monitoramento.
Contexto
Relatórios independentes que cruzam dados de bibliotecas de anúncios e APIs têm sido apontados por especialistas como ferramenta importante para avaliar cumprimento das normas eleitorais por plataformas digitais. O episódio reforça debates sobre transparência dos sistemas de publicidade e recomendação em períodos sensíveis à integridade do processo eleitoral.
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via Agencia Brasil