Autor: Guilherme Jeronymo — Publicado em: 03/10/2026 – 09:00 — Local: São Paulo
Mesmo durante a entressafra, o preço do limão permanece bem acima da média histórica devido à oferta reduzida. Produtores e especialistas atribuem a situação ao excesso de chuvas no início do ano, que prejudicou a florada e dificultou a colheita.
O pesquisador Renato Garcia Ribeiro, do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea/Esalq), ressalta que o limão apresenta elevada volatilidade de preços em seu histórico. “O momento atual é precário: chuvas no começo do ano afetaram a florada”, afirma Renato Ribeiro.
Dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) mostram forte alta nos preços recebidos pelo produtor no cinturão cítrico paulista — responsável por cerca de 80% da produção nacional. Na caixa de 27,2 kg do limão tahiti, o valor médio pago ao produtor subiu de R$ 32,10 em junho para R$ 55,60 em julho e R$ 104,78 em agosto, acumulando aumento de 226,4% no período. Em relação a agosto de 2025, o preço em agosto deste ano foi 71% maior.
No atacado, as variações também foram expressivas: no Ceagesp, o maior entreposto do país, o quilo passou de R$ 1,82 no início da entressafra (maio) para R$ 8,62 no pico, no fim de setembro — alta de 374%. Na CeasaMinas (Grande BH), a cotação foi de R$ 2,50 para R$ 8,50, variação de 240%.
A Conab explica o funcionamento típico do mercado: o pico da safra costuma ocorrer em janeiro e fevereiro; em março e abril a produção cai e se estabiliza; a entressafra se inicia no fim de maio e vai até meados de setembro, quando começa a entrada da nova safra. A queda observada neste começo de entressafra relaciona-se, segundo a central, a chuvas acima da média que afetaram tanto a quantidade quanto a qualidade comercializável dos frutos e a formação da próxima safra.
O excesso de umidade e o aumento de dias nublados no primeiro semestre elevaram a presença de frutos mais claros e dificultaram o trabalho de colheita. Além disso, houve redução no pegamento de frutos de floradas anteriores, diminuindo o volume que normalmente aliviaria a escassez em setembro e outubro.
Fatores de mercado também contribuíram para a pressão nos preços: o Brasil exporta cerca de 11% da safra, principalmente para a Europa, e a demanda interna aumentou com as altas temperaturas em agosto e setembro.
As regiões mais atingidas foram os principais polos produtores do cinturão cítrico paulista: Bebedouro e Matão — que juntas respondem por aproximadamente 68% da área de produção de limões e limas no cinturão. Do total de frutos produzidos na região, 88% correspondem ao limão tahiti. Outras áreas com produção relevante, porém em menor escala, incluem Limeira, Votuporanga e São José do Rio Preto.
A Conab projeta que a normalização dos preços deve ocorrer no fim do ano com a chegada da nova safra. Nos últimos dias observou-se queda nas cotações da Ceagesp, mas analistas alertam que ainda não é possível afirmar se essa tendência se sustentará.
Especialistas também apontam risco para a próxima safra: um forte episódio de El Niño esperado no começo de 2027 pode aumentar temperaturas e agravar déficit hídrico, estressando as plantas e comprometendo a florada do final da primavera e início do verão. Por outro lado, técnicos da Conab avaliam que o El Niño teve impacto limitado na produção deste ano, pois o fenômeno estava de intensidade baixa em julho e não pode ser apontado como a principal causa das alterações no mercado, apenas um fator que contribuiu para a atual configuração.
Em resumo, a combinação de chuvas fora do padrão, redução de produção nas áreas-chave do cinturão paulista, competição por exportação e maior demanda interna explicam por que o limão segue com preços elevados mesmo durante a entressafra.
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via Agência Brasil