China usa Fórum do Rio Yangtzé para aproximar povos ribeirinhos e promover cooperação internacional

China usa Fórum do Rio Yangtzé para aproximar povos ribeirinhos e promover cooperação internacional

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Autoridades, pesquisadores e representantes de mídia de quase 20 países se reuniram em Chongqing, no centro industrial da China, para a 4ª edição do Fórum da Civilização do Rio Yangtzé. O encontro, realizado na semana de 18 a 19 de setembro de 2026, teve como objetivo aproximar as narrativas de populações que vivem às margens de grandes rios — do Yangtzé ao Amazonas, do Nilo ao Danúbio e ao Mississippi — e fomentar cooperação técnica e cultural entre esses territórios.

Com o tema “Conectando Rios e Mares, compartilhando a sabedoria das civilizações”, o fórum recebeu especialistas, jornalistas e artistas de países como Egito, Sérvia, Austrália, Reino Unido, México, Turquia e Coreia do Sul, além de delegações brasileiras compostas por pesquisadores e profissionais da imprensa.

O encontro integra iniciativas lançadas pelo presidente Xi Jinping, entre elas a Iniciativa para a Civilização Global, anunciada em março de 2023, que propõe promover valores e cooperação internacional entre nações por meio de intercâmbios culturais e econômicos.

Rota Econômica do Yangtzé e visitas ao rio

Uma das propostas apresentadas em Chongqing foi a projeção da chamada Rota Econômica do Rio Yangtzé. Com cerca de 6,3 mil quilômetros, o Yangtzé é considerado a espinha dorsal da economia chinesa, ligando o interior ao porto de Xangai e sendo, junto com o rio Amarelo, um dos berços históricos da civilização no país.

Participantes fizeram um trajeto de cruzeiro de aproximadamente 440 quilômetros pelo leito do Yangtzé, visitando sítios históricos como a antiga fortaleza de Shibaozhai e o templo de Zhang Fei, locais com centenas de anos de história que ilustram a relação milenar entre populações e o rio.

Memória, arqueologia e narrativa global

Pesquisadores locais destacaram resultados de escavações que apontam para uma agricultura de arroz na bacia do Yangtzé com registros próximos a 10 mil anos, evidência que, segundo alguns acadêmicos chineses, tem sido subestimada em narrativas ocidentais sobre as origens das grandes civilizações fluviais.

“Durante muito tempo, o centro de gravidade do discurso sobre civilizações dos grandes rios do mundo inclinou-se para a Mesopotâmia e o Nilo, formando paradigmas analíticos de estilo ocidental”, afirmou Li Guoqiang, professor do Instituto de História e membro do conselho da Academia Chinesa de Ciências Sociais (CASS).

Especialistas egípcios presentes também compartilharam técnicas de monitoramento do Nilo que auxiliam na previsão de secas e enchentes, ressaltando a importância do intercâmbio de metodologias entre bacias hidrográficas diferentes.

O professor Alaa Hussein Mahmoud Menshawy, da Faculdade de Arqueologia da Universidade de Luxor, salientou que poluição, mudanças climáticas e pressões demográficas tornam essencial a cooperação para proteger rios e as comunidades ribeirinhas.

Impactos ambientais no Yangtzé

O avanço industrial e a urbanização acelerada nas últimas cinco décadas deixaram marcas profundas no Yangtzé. Entre os impactos mais dramáticos está a extinção do golfinho de água doce Baiji, ligado ao rio, declarada em 2006.

Li Guoqiang reconheceu que o processo de desenvolvimento adotado pela China causou desequilíbrios ecológicos, mas afirmou que houve mudança de rumo nas prioridades do país. Ele citou a chamada “teoria das duas montanhas” — que busca conciliar prioridade ecológica e desenvolvimento econômico — como orientadora das políticas recentes.

Entre as medidas adotadas, estão a proibição da pesca comercial no Yangtzé, vigente há dez anos, e projetos de recuperação ecológica do leito e das margens do rio.

Civilização ecológica como política de Estado

A noção de “civilização ecológica” foi progressivamente incorporada às políticas estatais chinesas: a ideia passou a ter prioridade nacional em 2012 e foi incorporada à Constituição do país em 2018, transformando-se em política pública de longo prazo.

A pesquisadora brasileira Vera Maria Ferreira da Silva, do Instituto Nacional de Pesquisa da Amazônia (INPA), observou no fórum que a navegação e a industrialização no Yangtzé contribuíram para o declínio da fauna local. Segundo ela, a mudança de direcionamento do governo em favor da conservação foi motivada pelo risco de chegar a um ponto de perda irreversível de recursos naturais.

Conexões com o Amazonas

Como expressão prática do diálogo entre grandes bacias, uma equipe do Centro Internacional de Comunicação do Oeste da China (WCICO), mídia estatal chinesa, gravou no Brasil um documentário ainda inédito intitulado “Quando o Yangtzé encontra o Amazonas”, que pretende registrar modos de vida e saberes de populações ribeirinhas amazônicas e chinesas.

Vivian Yan, produtora do projeto, disse que a diversidade e a estreita ligação das comunidades do Amazonas com o rio surpreenderam a equipe e motivaram a narrativa comparativa entre as bacias.

No fórum, especialistas brasileiros defenderam a busca por modelos econômicos compatíveis com a conservação da floresta. Vera Maria chamou atenção para alternativas de renda baseadas em produtos florestais não madeireiros, como açaí e castanha-do-pará, que podem gerar valores econômicos relevantes sem promover desmatamento.

O professor André Pereira Reinnert Tokarski, do Centro Universitário Alves Faria (Unialfa), alertou para a polarização entre propostas extremas: uma que prioriza exploração intensiva com ganhos imediatos e outra que rejeita qualquer atividade econômica. Para ele, é preciso encontrar um “caminho do meio” que reduza impactos e leve em conta realidade socioeconômica das populações locais.

Vera Maria também ressaltou que grande parte dos mamíferos aquáticos do sistema amazônico está classificada em algum nível de ameaça, o que exige políticas integradas de proteção e desenvolvimento sustentável.

Nota de viagem: o repórter percorreu cerca de 33 horas entre Brasília e Chongqing. A ida ao evento ocorreu a convite do Comitê Municipal do Partido Comunista Chinês (CPC) em Chongqing e da Academia Chinesa de Ciências Sociais (CASS).

Leia também: Chongqing: a metrópole de 32 milhões que impulsiona a transformação econômica da China

via Agência Brasil

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