Viva Maria completa 45 anos: programa de Mara Régia que transformou a voz das mulheres no rádio

Viva Maria completa 45 anos: programa de Mara Régia que transformou a voz das mulheres no rádio

Ultimas Notícias

Por Luiz Claudio Ferreira
Brasília, 14/09/2026

Em 14 de setembro de 1981, a jornalista Mara Régia di Perna, então com 30 anos, apresentou pela primeira vez o programa Viva Maria na Rádio Nacional. Quarenta e cinco anos depois, o projeto mantém-se em atividade e é reconhecido por articular demandas de cidadania, gênero e direitos humanos em todo o país.

Ao longo de quatro décadas e meia, o Viva Maria acumulou cerca de 8,2 mil edições transmitidas pelas emissoras do grupo, com participação intensa das ouvintes por telefone, cartas e e‑mail. Nesta segunda-feira, a emissora estreia uma série de 14 podcasts que resgata a trajetória do programa e seu papel social.

Impacto acadêmico e político

O alcance do programa atraiu a atenção do meio acadêmico: existem pelo menos 30 trabalhos de pós‑graduação que estudam o Viva Maria e seu papel na esfera pública. A iniciativa também foi espaço de articulação para o movimento feminista; a partir do auditório da rádio surgiu o Fórum das Mulheres do Distrito Federal, que participou da elaboração e divulgação da Carta das Mulheres aos Constituintes, entregue em 27 de março de 1987.

Na esfera de políticas públicas, a pressão e a visibilidade promovidas pelo programa foram apontadas como fatores importantes para a criação, em 1986, da primeira delegacia especializada no atendimento à mulher em Brasília. A jornalista recorda que o programa passou a ser reconhecido como um espaço de cidadania e denúncia.

Motivações pessoais e coragem

Mara Régia atribui parte do engajamento ao histórico familiar: a mãe, Yolanda, foi vítima de violência doméstica, episódio que motivou a radialista a usar o rádio como instrumento de apoio e mobilização. Nascida e criada no Rio de Janeiro, Mara mudou‑se para Brasília, onde cursou jornalismo e publicidade, e ainda passou dois anos em Londres aperfeiçoando conhecimentos sobre gênero.

O trabalho, porém, não foi isento de riscos. Com o crescimento da repercussão das denúncias e das investidas contra agressores expostos no ar, Mara recebeu ameaças telefônicas e passou a contar com proteção policial; por um período, seus filhos foram alojados com familiares fora da capital. Apesar disso, ela diz que nunca cogitou abandonar a missão.

Histórias que mudaram vidas

O Viva Maria transformou entrevistadas em multiplicadoras de experiências e em vozes locais de mobilização. Um exemplo é a professora Rosinete Serrão, do Amapá, que, depois de ter sua história de escalpelamento divulgada no programa, recebeu apoio para obter uma peruca, retornou aos estudos e concluiu uma formação em pedagogia. “Ao ser entrevistada, passamos a inspirar mulheres a não pararem diante do acidente”, disse Rosinete.

No Acre, a visibilidade garantiu apoio e conexão para parteiras como Maria Zenaide Carvalho. “Lá no seringal, o rádio é o preferido. Nós parteiras do Acre e da Região Norte nos comunicamos por ele. O programa nos uniu”, afirmou a parteira, citando a importância da interlocução que o Viva Maria estabeleceu entre comunidades isoladas.

Outra trajetória citada é a de Kennya Silva, trabalhadora rural que enviou uma carta ao programa e, após ser entrevistada, retomou os estudos e concluiu graduação em Letras. O programa ajudou não só a dar voz, mas também a abrir caminhos educacionais e profissionais.

Reconhecimento e missão

Além do impacto comunitário e político, o Viva Maria contabiliza mais de 30 prêmios nacionais e internacionais concedidos ao longo dos anos. Para Mara Régia, o programa se tornou uma missão de vida: um serviço público que alia informação, apoio e mobilização, especialmente no enfrentamento à violência contra a mulher e na luta por direitos sociais, saúde e educação.

Hoje, 45 anos após a estreia marcada por nervosismo e expectativa, o Viva Maria segue como referência no rádio brasileiro e como plataforma de mobilização feminina, agora ampliada também por formatos digitais, como os podcasts lançados nesta data.

Leia também: Planos pro Futuro espera 15 mil jovens na Cidade das Artes (Rio) entre 14 e 16 de setembro

via Agência Brasil

1 thought on “Viva Maria completa 45 anos: programa de Mara Régia que transformou a voz das mulheres no rádio”

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *