Evangélicos rejeitam politização de templos, mas influenciam voto por redes e valores, aponta pesquisa

Evangélicos rejeitam politização de templos, mas influenciam voto por redes e valores, aponta pesquisa

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Por Pedro Rafael Vilela — Brasília, 30/09/2026.

Embora líderes religiosos tenham papel visível no debate público, a maioria dos fiéis repudia a transformação de igrejas em palcos de campanha, segundo a pesquisa Religião e Vida Pública no Brasil, realizada pelo Instituto de Estudos da Religião (Iser) em parceria com a Quaest.

O estudo, que consultou 15 mil pessoas em 412 municípios — incluindo as 27 capitais — entre janeiro e fevereiro de 2026, com margem de erro de 1%, mostra que 83% dos entrevistados são contrários a pastores e padres indicarem em quem votar; 82% rejeitam discutir política durante cultos e missas; e 90% não aceitam campanhas eleitorais dentro de espaços religiosos.

O pastor Lucas Oliveira, 30 anos, de uma igreja batista em Nova Iguaçu (Baixada Fluminense), relata que o engajamento eleitoral nas últimas eleições deixou marcas nas comunidades e diz ter recebido muitos fiéis afetados por divisões internas provocadas por campanhas dentro do templo.

Para a pesquisadora Lívia Reis, do Iser, a atuação religiosa na política atual se dá menos por transferência direta de votos e mais pela formação de valores, identidades e redes de pertencimento. “É mais apropriado falar em mediação religiosa do voto do que em transferência direta”, afirma.

A politização dos espaços de culto, presente desde as eleições legislativas dos anos 1990 e acentuada em pleitos presidenciais a partir de 2018, ampliou disputas internas. Segundo Reis, o protagonismo público de algumas lideranças — que atuam também na mídia, nas redes e no Parlamento — contrasta com a percepção de muitos fiéis sobre o que é legítimo dentro do templo. A indicação explícita de voto se concentra em certas denominações, como Universal, Quadrangular e assembleias de Deus.

O pastor Moisés Blanco, 46 anos, da Igreja Batista Peregrina, em Natal, participa da Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito e enxerga na reação atual uma retomada da tradição protestante de defesa da liberdade de consciência e da separação entre Igreja e Estado.

Perfil e distribuição

O levantamento aponta que os evangélicos representam 29% da população brasileira e formam um grupo heterogêneo: 70% se identificam como pentecostais, 17% como protestantes e 10% como “evangélicos sem igreja”. A Assembleia de Deus é a maior denominação, reunindo 32% dos evangélicos; 28% declaram pertencer a uma diversidade de denominações pequenas e médias; evangélicos sem igreja e batistas aparecem com 10% cada; Congregação Cristã, Igreja Universal e Igreja do Evangelho Quadrangular respondem por 7%, 5% e 4%, respectivamente.

O catolicismo corresponde a 50% da população, dos quais 31% se declaram católicos praticantes e 19% não praticantes. Entre os católicos praticantes, níveis de participação semanal e hábitos de oração são comparáveis aos observados entre evangélicos.

Fé no ambiente digital

Embora resista à politização do templo, a religião está presente e influente fora dele — sobretudo nas plataformas digitais. Segundo a pesquisa, 66% dos entrevistados usam o WhatsApp como espaço de articulação religiosa online. A circulação de mensagens, vídeos e indicações por grupos e influenciadores permite que orientações políticas cheguem aos fiéis sem passar pelo púlpito.

No campo das lideranças de grande alcance, o estudo destaca nomes entre católicos — como Frei Gilson — e uma liderança evangélica digital pulverizada, com figuras como Bispo Deive Leonardo em evidência, além de influenciadores e atores políticos que também ocupam papéis religiosos.

Quanto ao consumo cultural ligado à fé, 73% dizem encontrar na Bíblia ou em versículos ensinamentos para a vida; 67% acompanham música gospel; e 59% consomem filmes e séries religiosas.

Religião, valores e escolhas políticas

A pesquisa indica que a religião contribui para a construção do voto por meio de repertórios morais e identitários que se combinam com fatores como classe, raça, gênero, território e escolaridade. Entre católicos brancos há equilíbrio nas preferências eleitorais, enquanto católicos negros (pretos e pardos) apresentam vantagem por candidaturas de esquerda. Entre evangélicos com ensino fundamental incompleto, o apoio à esquerda aproxima‑se do apoio à direita.

Os temas morais emergem como marcadores de identidade: 79% dos evangélicos apoiam educação sexual nas escolas; 80% são favoráveis ao uso de métodos contraceptivos; cerca de 90% rejeitam o homeschooling. No aborto, a divisão entre evangélicos aparece próxima, com 47% favoráveis à punição e 45% contrários, variando também conforme renda e escolaridade.

Dos 54% que se declaram conservadores, 75% apoiam o programa Bolsa Família e 66% são favoráveis à taxação dos mais ricos, o que indica que posições econômicas e sociais não seguem necessariamente os mesmos alinhamentos ideológicos.

Controvérsia recente

O debate sobre religião e política ganhou novo capítulo com a circulação de alegações, na semana anterior, de que grupos evangélicos ligados à campanha do candidato Flávio Bolsonaro defendiam retirar Nossa Senhora Aparecida do título de Padroeira do Brasil — denúncia que o candidato negou. Flávio Bolsonaro acionou a Justiça Eleitoral, alegando que as informações eram inverídicas e traziam discurso de ódio; o ministro André Mendonça do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) concedeu liminar determinando a remoção de postagens.

Em seguida, o ministro do Supremo Tribunal Federal Flávio Dino derrubou a decisão de Mendonça para liberar postagem do humorista Antonio Tabet sobre o caso. Mais tarde, o ministro Luiz Fux restabeleceu a suspensão das publicações. No dia 30 de setembro de 2026, o TSE iniciou o julgamento sobre a manutenção da medida de Mendonça; até então, apenas Mendonça havia votado para manter a retirada dos conteúdos. A sessão virtual estava prevista para se estender até as 23h59 do mesmo dia.

O episódio ilustra como conflitos envolvendo símbolos religiosos se deslocam rapidamente do meio religioso para arenas digitais e judiciais, reforçando a influência do ambiente online na mediação política da fé.

Em síntese, a pesquisa Iser/Quaest revela um segmento religioso numeroso e fragmentado: apesar da rejeição majoritária à utilização eleitoral dos templos, a fé continua a moldar valores e redes de confiança que atuam sobre o comportamento político, sobretudo fora do púlpito.

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via Agência Brasil

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