Em Magé, na Baixada Fluminense, um peixe pouco valorizado nos mercados locais ganhou novo status e se transformou em fonte de renda e organização comunitária. A ubarana, comum em áreas costeiras e estuarinas da Baía de Guanabara, é a estrela do cardápio da Cozinha das Caranguejeiras, que funciona na sede da Associação de Caranguejeiros e Amigos dos Mangue de Magé (ACAMM).
Do espaço saem receitas como estrogonofe, escondidinho, almôndegas, bolinhos, coxinhas, croquetes, quibes e risoles. Os pratos são vendidos em almoços especiais para a comunidade, visitantes, grupos de turistas, pesquisadores e empresas, além de encomendas. A iniciativa aproveita um pescado tradicionalmente preterido por ter muitas espinhas finas, mas que, com processamento adequado, ganha textura e sabor apreciados.
De comida de casa a negócio comunitário
A prática nasceu dos saberes de mulheres ligadas historicamente à cata de caranguejos no entorno do Rio Suruí, no recôncavo da Baía de Guanabara. Elas já beneficiavam a ubarana para consumo familiar e, ao longo do tempo, aperfeiçoaram técnicas para separar a carne das espinhas. Em 2021, após aprovação em edital do Fundo Brasileiro para a Biodiversidade (Funbio), o projeto obteve um endereço provisório alugado. Três anos depois, com novo apoio, a Cozinha migrou para um espaço maior dentro da ACAMM e ganhou escala; a cozinha foi inaugurada em 2023.
Márcia Regina, de 62 anos, que pescou por quatro décadas e hoje é auxiliar geral da Cozinha e secretária da ACAMM, relata que a atividade também cumpre papel social. Segundo ela, além de gerar renda, o trabalho coletivo acolhe mulheres em situações de vulnerabilidade, fortalecendo vínculos e a autoestima. Márcia presidiu a associação por 12 anos.
Por que a ubarana mudou de valor
De acordo com a bióloga Verônica Souza, do Projeto Andadas Ecológicas, da ONG Guardiões do Mar, a ubarana habita regiões costeiras e estuarinas e pode ser encontrada até em manguezais por toda a Baía de Guanabara. O grande número de espinhas costuma afastar consumidores e reduzir o preço do peixe. Ao desenvolver um modo próprio de preparo que minimiza a percepção das espinhas, as mulheres da Cozinha das Caranguejeiras conseguiram elevar o valor do produto e abrir um novo nicho para o pescado.
O presidente da ACAMM, Rafael Santos, lembra que a ubarana servia principalmente como complemento de segurança alimentar e começou a ser oferecida como petisco em encontros da associação. A boa aceitação levou à sugestão de venda regular, e as mulheres, testando receitas em casa, formataram um cardápio que hoje sustenta a iniciativa.
Renda, rodízio de trabalho e apoio às famílias
Atualmente, 15 mulheres atuam em sistema de rodízio na Cozinha e em outras ações da ACAMM, recebendo um percentual sobre as vendas. A rede alcança 24 famílias, incluindo pescadores associados que utilizam o espaço com aluguel reduzido para eventos pessoais, como aniversários e casamentos. A atividade complementa a renda obtida com a cata de camarão e a pesca de outras espécies na região.
Manguezal limpo, peixe de qualidade
O trabalho econômico caminha junto com a conservação. A ACAMM realiza ações de limpeza e replantio de manguezais — ecossistemas essenciais como berçários naturais de peixes e crustáceos. Desde janeiro, a Operação LimpaOca, desenvolvida pela ONG Guardiões do Mar com participação de pescadores artesanais e catadores de caranguejos, retirou 12.622 quilos de resíduos do Rio Suruí e de suas margens. A melhoria da qualidade ambiental no estuário é apontada pela associação como condição para manter o pescado saudável e disponível.
Turismo de Base Comunitária e educação ambiental
A Cozinha das Caranguejeiras também impulsiona roteiros de Turismo de Base Comunitária em Magé. Os visitantes percorrem áreas naturais e construções históricas e podem embarcar no Rio Suruí para observar fauna e flora da Baía de Guanabara — com chance de avistar botos. Segundo Rafael Santos, o espaço da Cozinha prioriza grupos interessados não apenas na alimentação, mas em conhecer práticas de educação ambiental conduzidas pela associação.
Parcerias e financiamento
A ACAMM e a Cozinha recebem suporte do Projeto Andadas Ecológicas, da ONG Guardiões do Mar, realizado em parceria com a Petrobras, como parte de condicionante da Licença de Instalação do Sistema Dutoviário do Complexo de Energias Boaventura. O projeto desenvolve ações de educação ambiental, Pagamento por Serviços Ambientais (PSA), moeda ambiental e limpeza de rios e manguezais, combinando geração de renda, turismo responsável e conservação dos ecossistemas locais.
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via Agência Brasil