Gestantes com anticorpos anti‑TPO positivos, mas com função tireoidiana normal (TSH e T4 livres dentro da faixa de referência), não devem receber levotiroxina de forma preventiva. Três grandes estudos recentes não demonstraram que a reposição hormonal nesses casos reduz risco de aborto espontâneo ou parto prematuro.
Por Daniella Almeida — Publicado em 28/08/2026 – 08:31 | Brasília
O que mudou
A Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) e a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO) atualizaram as orientações para o diagnóstico e o manejo das disfunções da tireoide na gravidez. As novas recomendações baseiam‑se na diretriz divulgada pela Associação Americana da Tireoide (ATA) em junho de 2026, que substitui o documento de 2017.
No Brasil, a divulgação ocorreu em 28 de agosto, durante o 37º Congresso Brasileiro de Endocrinologia e Metabologia, no Rio de Janeiro.
Indicação de tratamento
O principal ponto: se a gestante tem anticorpos anti‑TPO detectáveis, mas apresenta TSH e T4 livres normais (situação denominada eutireoidismo), não há evidência de benefício em iniciar levotiroxina apenas por conta da positividade dos anticorpos. Ainda assim, a função tireoidiana deve ser acompanhada ao longo da gestação, porque a presença de anticorpos aumenta a probabilidade de evolução para hipotireoidismo.
Para mulheres que já utilizavam levotiroxina por diagnóstico prévio de hipotireoidismo, a orientação permanece: aumentar a dose habitual em cerca de 30% assim que a gravidez for confirmada, para atender à maior demanda hormonal do período gestacional.
Rastreamento: Brasil mantém triagem universal
Ao contrário da recomendação da ATA, que sugere rastreamento seletivo baseado em fatores de risco, as sociedades brasileiras optaram por manter a estratégia de testar todas as gestantes desde o início da gestação. A justificativa é que o rastreamento seletivo pode deixar de identificar alterações em mulheres sem os critérios de risco previamente estabelecidos.
Segundo Cleo Mesa Júnior, subcoordenador do Departamento de Tireoide da SBEM, a triagem universal permite individualizar melhor os casos e evitar o uso excessivo e desnecessário de medicação.
Hipotireoidismo subclínico
Para o hipotireoidismo subclínico (TSH elevado com T4 livre normal), a recomendação brasileira foca o início do tratamento quando o TSH estiver entre 4,0 e 10 mUI/L durante o primeiro trimestre da gravidez, período em que o desenvolvimento fetal depende mais do hormônio tireoidiano materno. Se a alteração for detectada no segundo ou terceiro trimestre, o aconselhamento é acompanhar a função tireoidiana e só iniciar levotiroxina se o TSH ultrapassar 10 mUI/L.
Os especialistas ressaltam que a decisão terapêutica deve considerar o nível de TSH, o T4 livre e a fase da gestação, não havendo evidência clara de benefício em tratar de rotina todas as elevações leves do TSH fora desses critérios.
Repetição de exames e janela de tratamento
A diretriz internacional recomenda repetir a dosagem de TSH entre uma e três semanas antes de optar pelo tratamento, já que alterações leves podem ser transitórias. No entanto, as sociedades brasileiras ponderam que, em sistemas onde o retorno rápido nem sempre é possível, aguardar pode fazer perder a janela ideal para intervenção, por isso nem sempre se recomenda esperar esse intervalo para decidir pela terapia.
Atualização dos fatores de risco
Quando a testagem universal não for viável, a nova orientação brasileira prioriza a investigação em gestantes com maior probabilidade de disfunção tireoidiana. Permanecem como critérios de risco:
- histórico pessoal de hipo ou hipertireoidismo;
- cirurgia ou tratamento prévio da tireoide;
- doenças autoimunes (por exemplo, diabetes tipo 1);
- história familiar de doença tireoidiana;
- infertilidade;
- dois ou mais abortamentos;
- uso de medicamentos que interferem na função tireoidiana.
Foram excluídos como fatores de triagem isolados a idade materna, a obesidade e o número de gestações anteriores, por terem baixo poder discriminatório quando considerados separadamente.
Iodo na gestação
A ATA recomenda garantir ingestão adequada de iodo já antes da concepção, mas a atualização brasileira não indica suplementação universal. A orientação é individualizar a reposição, especialmente em mulheres com risco de ingestão insuficiente — por exemplo, dietas muito restritivas ou veganas, baixo consumo de sal iodado ou problemas de absorção intestinal —, considerando suplementação de 100 a 150 µg de iodo por dia nesses casos.
Contexto e implicações
As mudanças visam reduzir a exposição desnecessária à levotiroxina em gestantes sem benefício comprovado, preservando a conduta para quem realmente necessita de reposição hormonal. Ao mesmo tempo, mantêm o acompanhamento clínico e laboratorial para identificar precocemente mulheres que venham a desenvolver hipotireoidismo durante a gravidez.
O conjunto de alterações nas recomendações enfatiza a importância de decisões individualizadas, baseadas em exames laboratoriais, no momento gestacional e no risco clínico, em vez de tratar apenas com base na presença de anticorpos.
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via Agência Brasil
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