Cobertura vacinal baixa deixa gestantes mais expostas a gripe e covid; especialistas pedem ação imediata

Cobertura vacinal baixa deixa gestantes mais expostas a gripe e covid; especialistas pedem ação imediata

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Por Tâmara Freire — Rio de Janeiro, 29/09/2026

Enquanto algumas grávidas chegam ao parto com a carteira de vacinação atualizada, outras deixam de receber imunizantes que são considerados seguros e eficazes durante a gestação — cenário que eleva o risco de doenças graves tanto para as mães quanto para os bebês.

No centro do Rio de Janeiro, a gestante Nataly Saldanha, de 39 semanas e à espera da filha Noely, conta que participou de todas as consultas de pré-natal e manteve as vacinas em dia. Semanas mais atrás, a analista de marketing Raissa Silva de Oliveira, que está com 34 semanas e espera o filho Rafael, também relatou ter seguido as orientações médicas quanto à imunização.

Quedas de cobertura e metas não alcançadas

Relatórios do Ministério da Saúde indicam recuos na adesão a imunizantes prioritários para gestantes. Em 2025, 55% das mulheres grávidas foram vacinadas contra a covid-19 e 63% contra a influenza (dados das regiões Sudeste, Sul, Nordeste e Centro-Oeste). Dados preliminares de 2026 mostram melhora na cobertura da vacina contra influenza, que alcança 76%, mas a vacinação contra a covid-19 permanece em 55%. A meta estabelecida é 90% do público-alvo para ambos os imunizantes.

Consequências em números

As consequências da baixa adesão são evidentes nos registros de síndrome respiratória aguda grave (SRAG). Entre 2023 e início de agosto de 2026, pelo menos 286 gestantes ou puérperas desenvolveram SRAG associada a algum subtipo do vírus Influenza; desse total, 25 morreram, sendo sete em 2026. No mesmo período, a covid-19 foi responsável por ao menos 205 casos graves entre gestantes e puérperas, com 21 óbitos.

Durante os três primeiros anos da pandemia (2020–2022) foram notificados 3.547 casos de SRAG confirmados por covid-19 em gestantes ou puérperas, com 811 mortes — quase um quarto dessas mulheres veio a óbito.

Estudos comparativos sobre o efeito da vacinação mostram redução expressiva: após a implementação da imunização em gestantes, a média mensal de casos de SRAG despencou para cerca de um terço do patamar anterior e a mortalidade caiu quase cinco vezes.

Por que existe resistência?

Para Flávia Bravo, diretora da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), há explicações distintas para a hesitação: acomodação em relação à influenza — quando a população subestima a gravidade da doença — e desinformação sobre as vacinas contra a covid-19. Segundo ela, a ideia de que as vacinas para covid-19 seriam “experimentais” é equivocada; as tecnologias utilizadas têm base prévia e passaram por estudos extensivos.

Proteção que beneficia mãe e filho

Além de proteger a gestante, a imunização durante a gravidez transfere anticorpos pela placenta, oferecendo proteção ao recém-nascido nos primeiros meses de vida, antes do início das vacinas pediátricas contra influenza e covid-19, aos 6 meses. Ensaios clínicos apontam redução de até cerca de 70% na ocorrência de influenza nos primeiros meses do bebê e alta eficácia das vacinas de RNA mensageiro contra mortes por covid-19.

Dados de vigilância do Ministério da Saúde mostram que, até 19 de setembro de 2026, quase 4.000 casos de SRAG causados por influenza em crianças menores de 2 anos resultaram em 55 mortes. Para covid-19 nessa faixa etária, foram 808 casos graves com 18 óbitos em 2026; desde 2023, ao menos 9.725 crianças menores de 2 anos tiveram quadros graves por covid-19, com 223 mortes.

Outras vacinas recomendadas e impacto sobre doenças infantis

O calendário oferecido pelo Sistema Único de Saúde (SUS) inclui, além de influenza e covid-19, as vacinas contra hepatite B, dT, dTpa e o imunizante contra o vírus sincicial respiratório (VSR) para gestantes. A vacina contra febre amarela pode ser indicada em situações de risco epidemiológico.

A introdução da vacinação contra o VSR, iniciada no ano anterior, já alcançou cerca de 1,7 milhão de gestantes — estimativa de 86% de cobertura — e, somada à aplicação de anticorpo monoclonal em bebês prematuros ou com comorbidades, foi associada a queda importante nos casos graves: no primeiro semestre de 2026 foram 6.674 casos em bebês de até 6 meses, menos da metade dos 14.061 registrados no mesmo período de 2025.

O Brasil também tem exemplos históricos do benefício da imunização materna: a oferta de dT para mulheres desde a década de 1960 ajudou a eliminar o tétano neonatal; a inclusão da dTpa no pré-natal, a partir de surtos de coqueluche, elevou a cobertura em gestantes de 34% em 2016 para 94% em 2025 (preliminar de 2026: 88%). Em consequência, os casos de coqueluche caíram de 7.747 em 2024 para 2.744 em 2025, e 401 até 10 de setembro de 2026. Dos 11 óbitos por coqueluche registrados em 2026, nove foram de bebês menores de 1 ano — oito deles com menos de 6 meses.

O papel dos profissionais de saúde

Médicos e agentes de saúde que acompanham gestantes são apontados por especialistas como peças-chave para aumentar a cobertura vacinal. A médica de família Catarina Jatobá relata que, na unidade onde atende em área central do Rio, o cartão de vacinação é conferido já na primeira consulta e as doses pendentes costumam ser aplicadas no mesmo dia para evitar perdas. Agentes comunitários realizam visitas domiciliares mensais para reforçar o acompanhamento.

As especialistas ressaltam ainda que todas as vacinas recomendadas na gestação passaram por estudos e não apresentam riscos comprovados de malformação fetal, autismo ou morte fetal. A orientação é que a imunização faça parte do cuidado obstétrico rotineiro, como ferramenta para reduzir internações, complicações e óbitos maternos e infantis.

Mensagens finais

Com metas de cobertura não atingidas, autoridades e profissionais de saúde defendem reforço nas campanhas de informação e no aconselhamento clínico para reverter a hesitação. A manutenção do cartão de vacinação em dia, a oferta integrada às consultas de pré-natal e o envolvimento da família são práticas citadas por quem acompanha gestantes como medidas essenciais para ampliar a proteção contra doenças respiratórias e bacterianas que podem ser graves nessa fase da vida.

Exemplos de gestantes que se vacinaram mostram que, além da proteção individual, a decisão contribui para a saúde do recém-nascido e da comunidade.

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via Agência Brasil

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