No Dia Nacional do Voluntariado, celebrado em 28/08/2026, profissionais de saúde mental e redes de voluntários destacam o papel do trabalho voluntário no acesso a cuidados psicossociais para vítimas de desastres, jovens em crise e grupos marginalizados.
Intervenção pós-desastre: trabalho remoto e formação local
A psicóloga brasiliense Esly Carvalho, com 45 anos de experiência e especializada em traumas, passou a atuar em ações humanitárias após terremotos, guerras e enchentes. Ela afirma que a formação de equipes locais permite intervenções em escala e mais sustentáveis.
Esly defende o uso de EMDR (Dessensibilização e Reprocessamento por Movimentos Oculares)como técnica para desbloquear memórias dolorosas e tornar o cuidado em contextos agudos mais eficaz.
Após o terremoto que matou mais de 6 mil pessoas na Venezuela em junho, Esly criou um programa de capacitação para profissionais do país. Segundo ela, mais de 100 colegas foram treinados e, coletivamente, atenderam a mais de 500 pessoas. A equipe venezuelana realiza atendimentos online gratuitos às quintas-feiras e também presta escuta em campo — inclusive a vítimas em acampamentos na região de La Guaira — e atende, a distância, pessoas afetadas pelo desastre na Colômbia.
Uma das profissionais formadas, a psicoterapeuta Deglya Flores, 59 anos, diz ter recebido suporte imediato por videoconferência logo após o tremor e relata que o atendimento em grupo ajudou a reduzir angústia entre colegas e moradores das áreas atingidas. Segundo Deglya, a Venezuela conta hoje com apenas 17 terapeutas especialistas em traumas, o que torna o treinamento de multiplicadores ainda mais importante.
Projeto Help: de seis amigos a 7 mil voluntários
Em São Paulo, o grupo que originou o Projeto Help começou em 2017 com seis amigos que colocavam bilhetes com mensagens e contatos em viadutos e pontes para alcançar pessoas em crise. O trabalho cresceu e hoje reúne cerca de 7 mil voluntários em todas as unidades federativas; a conta do projeto no Instagram tem 389 mil seguidores.
Felipe Santos, coordenador nacional do projeto, lembra que a primeira forma de contato era por telefone, quando pessoas em situação de risco ligavam após verem os bilhetes. Hoje, as ações incluem palestras em escolas, escutas presenciais em rodoviárias, parques e estações de trem — entre elas, atendimento recente na estação de Francisco Morato — além de atendimentos remotos iniciados por WhatsApp.
O coletivo prioriza atenção a jovens, que têm procurado ajuda com frequência e relatado sintomas de ansiedade, quadro depressivo e problemas relacionados ao uso intensivo de tecnologia e apostas online.
Prevenção e alcance local em Brasília
No Distrito Federal, o coordenador local é Thiago Domingos, 31 anos, militar da Marinha que ingressou no voluntariado após se deparar com casos de suicídio entre jovens nas Forças Armadas. Segundo Thiago, o projeto atua na prevenção e atende pessoas que não têm recursos para consultas particulares.
Nos últimos anos, a ação em Brasília já registrou cerca de 5 mil atendimentos. A equipe local conta com 15 psicólogos voluntários que realizam atividades regulares, como o chamado “cantinho do desabafo”.
Juliana Cei, 38 anos, que trabalha na área organizacional em tempo integral, descreve que o voluntariado lhe trouxe um novo sentido profissional ao poder ouvir relatos de solidão e fragilidade emocional. Ela observa que muitos jovens têm pouco convívio familiar de qualidade, o que aumenta a vulnerabilidade a crises. Juliana lembra uma situação em que uma adolescente, após o atendimento, manifestou interesse em estudar psicologia e tornar-se voluntária no futuro — um dos efeitos que ela chama de “plantar uma sementinha”.
Grupos específicos: apoio à comunidade trans
O psicólogo brasiliense Lucas Hedler, 45 anos, participa de grupos de apoio voltados para pessoas trans. Ele explica que muitas pessoas trans enfrentam ambientes familiares hostis, expulsão de casa e violência, problemas que se agravaram durante a pandemia. Lucas pretende ampliar projetos voluntários para esse público e está se especializando em autismo, citando uma observação clínica de maior incidência de transtorno do espectro autista em pessoas trans.
Onde buscar ajuda gratuita
- CVV — Centro de Valorização da Vida: ligue 188
- Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) do SUS — serviços locais de saúde mental
- Alcoólicos Anônimos — grupos de apoio para dependência
No Dia Nacional do Voluntariado, iniciativas como treinamentos remotos, escutas em espaços públicos e grupos de apoio reforçam que a oferta de cuidados psicológicos pode ser ampliada por ações coletivas e pela formação de multiplicadores, especialmente em contextos de emergência e entre populações com acesso limitado a serviços formais.
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via Agência Brasil