O partido Alternativa para a Alemanha (AfD) conquistou o primeiro lugar na eleição estadual da Saxônia-Anhalt realizada no domingo (6), apontam pesquisas de boca de urna. Com aproximadamente 44% dos votos, a formação de extrema direita obteve um resultado que representa uma virada histórica no pós‑guerra alemão e um sério revés para os conservadores do chanceler Friedrich Merz.
A alta adesão às urnas marcou o pleito: segundo a emissora ZDF, a participação chegou a cerca de 77%. Pesquisas regionais também mostraram elevado descontentamento com o governo federal — uma sondagem da ARD indicou que 87% dos eleitores do estado manifestaram insatisfação com o Executivo em Berlim.
Vitória e reação interna
Ulrich Siegmund, de 35 anos e cabeça de lista da AfD na Saxônia-Anhalt, descreveu o resultado como um marco na trajetória do partido e apresentou a vitória como um passo para ampliar a influência nacional antes das eleições federais previstas para 2029. Na convenção do partido em Magdeburg, apoiadores celebraram com bandeiras e abraços, e os líderes nacionais da AfD estiveram ao lado de Siegmund quando as primeiras projeções foram divulgadas.
A repercussão ultrapassou fronteiras: o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, republicou a imagem do placar no seu perfil na plataforma Truth Social, e líderes de movimentos de direita em outros países saudaram o resultado.
Consequências políticas e incertezas
Apesar do desempenho expressivo, não ficou claro imediatamente se a AfD conseguiria formar um executivo estatal, dado que todos os principais partidos tradicionais na Alemanha mantêm uma política de não cooperação com a legenda, que é classificada como de extrema direita pelo serviço de inteligência interna do país.
Uma alternativa levantada por um partido menor, a Aliança de Sahra Wagenknecht (BSW), foi a proposta de um primeiro‑ministro estadual apartidário sustentado por maiorias variáveis, inclusive com votos eventuais da AfD. Siegmund rejeitou essa ideia, afirmando que o partido não aceitaria acordos que impedissem a implementação de seu programa e dizendo que, se necessário, novas eleições poderiam ser convocadas.
Os conservadores, cujo apoio nacional tem caído — pesquisas recentes do INSA colocam a AfD com 28% das intenções de voto contra 20% dos conservadores — indicaram que buscarão negociações para evitar um governo liderado pela AfD, o que exigiria alianças improváveis entre siglas com plataformas muito distintas. Há precedentes regionais no leste da Alemanha: na Turíngia, por exemplo, conservadores governam em minoria com tolerância passiva do Partido de Esquerda.
Agenda da AfD e críticas
A AfD tem apresentado um programa marcado por propostas de endurecimento das políticas migratórias, redução do apoio à Ucrânia, reaproximação com a Rússia e defesa da saída do euro. No âmbito interno, o partido defende medidas como maior ênfase a valores considerados “tradicionais” nas escolas e instituições culturais, restrições a símbolos como a bandeira arco‑íris em ambientes escolares, hasteamento diário da bandeira nacional e execução do hino em celebrações escolares.
Outras propostas incluem a segregação de crianças refugiadas em turmas separadas, criação de patrulhas de cidadãos, ampliação do ensino de russo nas escolas e suspensão de novos projetos eólicos. A AfD rejeita rótulos de extremismo, qualificando as críticas como exageradas e ofensivas aos seus eleitores.
Contexto socioeconômico
A Saxônia-Anhalt, ex‑território da antiga Alemanha Oriental, tem pouco mais de 2 milhões de habitantes e é um dos menores estados do país. Analistas apontam que o avanço da AfD desde sua fundação em 2013 reflete, entre outros fatores, o desgaste dos partidos tradicionais e a frustração popular com a economia estagnada e o estilo de comunicação político.
O chanceler Friedrich Merz tem visto seus índices de aprovação caírem, enquanto anuncia reformas pró‑mercado e maior gasto público para impulsionar a economia. Ele advertiu que um governo estadual liderado pela AfD poderia prejudicar o desenvolvimento regional e afastar investimentos estrangeiros.
Com o cenário político nacional fragmentado, a vitória da AfD em solo regional eleva as tensões sobre o futuro das alianças partidárias e a governabilidade na Alemanha.
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via Agência Brasil