Rio de Janeiro — Por Isabela Vieira
Marcada para domingo, 13 de setembro de 2026, a 25ª edição da Lavagem de Madeleine — celebração afro-brasileira que reúne rituais religiosos e manifestações culturais — não foi autorizada para ocorrer sobre as escadarias da igreja La Madeleine, em Paris. O pároco da paróquia, Monsenhor Patrick Chauvet, informou que não permitiria a lavagem das escadarias em 2026; diante da decisão, os organizadores transferiram a cerimônia para a área pública em frente à igreja, onde projetam a presença de cerca de 60 mil pessoas.
A programação manteve a mistura de cultos e eventos artísticos: além do ato religioso ecumênico, com referências ao catolicismo e às religiões de matriz africana, haverá apresentações musicais e um cortejo. A cantora Mariene de Castro foi anunciada como atração principal, e o multiartista Robertinho Chaves será mestre de cerimônia, participando da festa em um trio elétrico ao lado de outros nomes confirmados, como o cantor Jau e a artista franco-brasileira Gildaa. A soprano Lorena Pires, integrante da Academia da Ópera Nacional de Paris, interpretará a oração Ave Maria.
O ponto de concentração será a Place de la République, de onde sairá o cortejo ao som de samba, maracatu, capoeira e com uma ala de baianas. Apesar da proibição na escadaria, a organização espera reunir uma centena de artistas e afirma que o evento tem papel de divulgação da cultura brasileira na Europa e compromisso com a tolerância.
Em nota pública, os organizadores convocaram artistas, instituições culturais, líderes religiosos, movimentos sociais, brasileiros, franceses e imigrantes a apoiarem a 25ª Lavagem e a participarem da mobilização em defesa da liberdade religiosa, da diversidade cultural e dos direitos.
A Arquidiocese de Paris foi procurada para comentar a recusa, mas não apresentou explicações sobre a decisão. No site da instituição figura, neste período, um apelo para que católicos demonstrem «amizade» à comunidade judaica, que celebra o Ano Novo (Rosh Hashaná) e o Dia do Perdão (Yom Kippur). A organização do evento disse permanecer aberta ao diálogo com a paróquia.
A Lavagem de Madeleine é inspirada na tradicional Lavagem da Igreja do Bonfim, em Salvador (BA), e é realizada em Paris há mais de duas décadas. Desde 2022, recebeu do Ministério da Cultura francês o reconhecimento como patrimônio imaterial e integra o calendário cultural da cidade. O evento também faz parte da Rota dos Escravizados da Unesco, roteiro que conecta locais ligados à memória da escravidão.
Em edições recentes, a celebração contou com nomes importantes da música brasileira: em 2025 a homenageada foi Preta Gil; em anos anteriores já passaram pelo evento artistas como Gilberto Gil, Caetano Veloso, Daniela Mercury, Margareth Menezes, Carlinhos Brown e integrantes do Olodum.
Organizadores informaram ainda que o evento conta com apoio de órgãos do Brasil. Representantes oficiais franceses no Brasil foram contatados pela reportagem para comentar a negativa da igreja, mas não responderam devido ao fuso horário.
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via Agência Brasil