Por Guilherme Jeronymo — São Paulo, 22/09/2026 – 20:56
Um novo relatório do Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br) identifica vídeos falsos produzidos por inteligência artificial e a circulação de informação de baixa qualidade como a principal ameaça digital às eleições e à democracia. O documento, intitulado Guia Internet, Democracia e Eleições, foi publicado em 22 de setembro de 2026.
O guia destaca que, desde a primeira edição em 2018, houve uma mudança significativa nas formas de difusão da desinformação. Se antes as redes abertas, como o Facebook, desempenhavam papel central, hoje plataformas de comunicação mais restritas e privadas — sobretudo o WhatsApp — assumiram protagonismo na disseminação de conteúdo enganoso.
Especialistas do CGI.br apontam que a desinformação tornou-se mais fragmentada e simultânea, circulando em múltiplos ambientes digitais ao mesmo tempo. Em termos de formato, o relatório indica que o vídeo passou a ser o vetor predominante, frequentemente acompanhado por textos curtos que servem para ancorar e dar aparência de veracidade às narrativas.
O documento também registra o avanço das ferramentas de IA generativa. Embora essas tecnologias tenham começado a aparecer no ciclo eleitoral de 2022, espera-se que em 2026 seu impacto seja muito maior, sobretudo quando combinadas com mecanismos de difusão que segmentam audiências e roteiros cada vez mais sofisticados para aumentar a semelhança com materiais autênticos.
“Hoje, as plataformas digitais ocupam um lugar central na forma como os brasileiros se informam sobre o que acontece no mundo, no país e nas cidades onde vivem”, afirma Renata Mielli, coordenadora do CGI.br.
Renata Mielli ressalta que as grandes plataformas são empresas privadas guiadas por objetivos econômicos, não por interesse público, e que conhecer como esses ambientes funcionam — desde os sistemas de recomendação até as formas de moderação — é crucial para proteger a integridade do debate público.
O guia analisa o funcionamento de sistemas de recomendação de conteúdo, explora os efeitos da IA generativa no contexto eleitoral e descreve tecnologias como deepfakes e grandes modelos de linguagem conversacionais, explicando seus mecanismos e riscos práticos.
Além da análise técnica, a publicação oferece diretrizes institucionais para enfrentar a desinformação e orientações para que cidadãos evitem ser vítimas ou propagadores de conteúdos falsos ou enganosos.
O estudo chama atenção ainda para o papel dos influenciadores digitais: apesar da relevância na circulação de conteúdo, eles não seguem um código de ética jornalística nem respondem institucionalmente pela veracidade das informações que divulgam, o que aumenta o risco de amplificação de imprecisões deliberadas.
Alerta sobre deepfakes e perda de confiança
O grupo do CGI.br aponta que a principal preocupação com deepfakes é o grau crescente de realismo. À medida que esses conteúdos são refinados, tornam-se capazes de enganar até mesmo usuários experientes na verificação de informações.
O relatório adverte que deepfakes podem alimentar uma desconfiança generalizada, corroendo a credibilidade de notícias verdadeiras e instituições. Essa tendência se associa a fatores como polarização política, o enfraquecimento da confiança na imprensa e no Judiciário, e a tendência de as pessoas consumirem informações que confirmem crenças pré-existentes.
“A perda de confiança em instituições como a imprensa e o Judiciário, somada à polarização política, também contribuem para esse cenário, fazendo com que convicções pessoais se sobreponham à verificação dos fatos”, alerta o Guia.
O guia também descreve fenômenos cognitivos como a racionalidade motivada, em que o público tende a rejeitar evidências que contrariem crenças prévias, o que pode intensificar efeitos de reforço ideológico e fragmentação do debate público.
A publicação está disponível no site do CGI.br e reúne recomendações para atores públicos, plataformas e cidadãos com o objetivo de mitigar riscos antes e durante o período eleitoral.
Em suma, o relatório do CGI.br aponta que o desafio atual não é apenas a circulação de mensagens falsas, mas a combinação de formatos realistas (como vídeos gerados por IA), canais de difusão privada e algoritmos de direcionamento que tornam a desinformação mais eficaz e mais difícil de combater.
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via Agência Brasil
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