Por Tâmara Freire — Enviada Especial | 12/09/2026 – 09:20 | Banos e Puyo, Equador
A floresta amazônica atua como uma infraestrutura natural que recicla água e alimenta precipitações em grande parte da América do Sul. Umidade vinda do oceano gera chuvas sobre a mata; árvores absorvem essa água do solo e a devolvem à atmosfera por evapotranspiração; correntes de vento transportam esse vapor para outras regiões, onde condensa e retorna em forma de chuva.
Segundo a pesquisadora Julia Valentim Tavares, esse processo configura a maior “máquina de chuva” do planeta: uma única árvore adulta pode liberar entre 200 e 300 litros de água por dia, e, coletivamente, cerca de 400 bilhões de árvores criam o que cientistas descrevem como verdadeiros “rios voadores” de umidade pelo continente.
Marielos Peñaclaros — copresidente do Painel Científico pela Amazônia, que reúne mais de 350 cientistas — ressaltou, durante evento realizado no fim de agosto no Equador, que a floresta é a espinha dorsal dos ciclos de água, nutrientes e carbono em escalas local, regional e global. A perda dessa conectividade ecológica, afirmou, compromete serviços essenciais para milhões de pessoas.
Ameaças já mensuráveis
Pesquisadoras participantes do encontro alertaram que atividades humanas como desmatamento, queimadas, mineração e ações criminosas ligadas ao narcotráfico estão fragmentando a paisagem amazônica e reduzindo sua capacidade de manter os ciclos hídricos. Há evidências de que áreas desmatadas na Amazônia brasileira já registram queda de chuvas, elevação de temperatura e secas mais longas.
Julia Valentim Tavares, que estuda árvores na borda sul do bioma — a chamada “arco do desmatamento” — relatou que, na última década, diminuiu o volume de precipitação e aumentou o calor nessa região. Sua pesquisa investiga por quanto tempo as árvores suportam episódios recorrentes de seca antes de sofrer colapso hidráulico: com menos água disponível no solo, os vasos que conduzem água nas plantas ficam tensionados e podem falhar, levando à morte por falta de água.
Efeitos recentes e riscos futuros
O aquecimento global e eventos climáticos extremos já ampliaram os riscos para a Amazônia. Em 2024, o bioma viveu a pior seca registrada, em grande parte causada pelo El Niño, que aquece o Pacífico e altera a circulação atmosférica. Naquele episódio, 88% da bacia amazônica sentiram os impactos da seca; cidades fora da floresta, como Bogotá e Quito, sofreram escassez de água e até cortes no fornecimento de energia.
A seca de 2024 também deixou a floresta mais suscetível a incêndios, que atingiram níveis recordes e espalharam fumaça por grandes áreas do Brasil. Para as pesquisadoras, esses eventos demonstraram que o que acontece na Amazônia tem efeitos diretos fora dela e que grande parte da população sul-americana depende dos serviços hídricos gerados pelo bioma.
O alerta ganhou força com previsões de um possível “super El Niño” para 2026–2027, que, se confirmado, pode repetir ou agravar os impactos observados em 2024. Repetidos episódios de seca e fogo podem fazer a floresta deixar de funcionar como sumidouro de carbono e passar a emitir mais dióxido de carbono, intensificando o aquecimento global.
Soluções propostas
- Redução drástica das emissões de gases de efeito estufa, com transição para fontes de energia menos poluentes.
- Investimento em restauração e reconexão de áreas degradadas para recuperar a continuidade ecológica do bioma.
- Medidas que combatam atividades ilegais (mineração e narcotráfico) e reduzam pressões sobre a floresta.
As pesquisadoras defendem que só a combinação dessas ações poderá aumentar a resiliência da Amazônia e adiar ou evitar o ponto de não retorno, cuja perda total da conectividade teria consequências catastróficas em escala continental.
Observação: a reportagem acompanhou o TEDxAmazonia a convite da organização do evento.
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via Agência Brasil