Brasília, 13/09/2026 — A menos de um mês do primeiro turno marcado para 4 de outubro, representantes de organizações da sociedade civil afirmam que a escalada da crise político-institucional no Poder Judiciário vem roubando atenção do debate sobre programas de governo e propostas eleitorais.
Segundo lideranças consultadas, as disputas entre ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e seus reflexos em outras instituições passaram a ocupar a maior parte do noticiário, das redes sociais e das conversas públicas, relegando a segundo plano temas estruturais considerados centrais para o futuro do país.
Para Samira de Castro, presidenta da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), o cenário atual faz com que a cobertura e a discussão pública privilegiem a crise institucional em detrimento da análise das propostas apresentadas por candidatos e candidatas.
Francilene Garcia, presidenta da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), ressaltou que assuntos como financiamento e regras estáveis para pesquisa deveriam figurar no centro da agenda pré-eleitoral. Ela observou que a sociedade ficou forçada a debater prioritariamente a integridade das instituições, em vez de combinar esse tema com projetos mais amplos de desenvolvimento.
Entrevistados também destacaram a relevância dos desdobramentos da Operação Compliance Zero — cuja primeira fase foi deflagrada pela Polícia Federal em novembro de 2025 — e a necessidade de apurar suspeitas envolvendo autoridades e o ex-dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, sem, porém, permitir que essas investigações impeçam a discussão pública sobre propostas para o Executivo e o Legislativo.
Daniel Cara, coordenador honorário da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, avaliou que estas eleições são das mais importantes desde 1988, diante de um cenário global de reestruturação produtiva e conflitos. Ainda assim, afirmou, pautas como desenvolvimento econômico, soberania, educação, ciência e tecnologia têm recebido pouca atenção nas plataformas de governo.
Rita Serrano, presidenta do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap), afirmou que a crise interrompeu avanços legislativos que interessam à classe trabalhadora, como a proposta de extinguir a escala 6×1, a geração de emprego e renda e a regulamentação da negociação coletiva no setor público (PL 1.893/2026). Segundo ela, até agosto essas pautas vinham sendo tratadas no Congresso, mas agora foram postergadas pela instabilidade institucional.
O debate sobre mudanças climáticas também perdeu destaque, apesar de eventos climáticos recentes — como secas e enchentes — terem evidenciado impactos sociais e econômicos, na avaliação do Observatório do Clima. Márcio Astrini, secretário-executivo da entidade, destacou que poucos candidatos incluem a crise climática entre prioridades e que a eleição de representantes que neguem o problema pode comprometer medidas futuras para mitigar seus efeitos.
Outro tema apontado como estratégico pelas fontes consultadas é a exploração de minerais críticos e terras raras, fundamentais para o desenvolvimento tecnológico e para a soberania nacional. Parlamentares aprovaram recentemente um projeto que cria a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos, encaminhado para sanção presidencial; o setor produtivo enxerga potencial de avanço tecnológico, enquanto organizações indígenas exigem garantias socioambientais e consulta prévia conforme a Convenção 169 da OIT.
Alcebias Constantino, coordenador-executivo da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), disse que a pauta mineral toca diretamente na luta pela demarcação e proteção dos territórios indígenas. Para ampliar representação, o movimento indígena lançou e apoia 56 candidaturas neste pleito, distribuídas da seguinte forma:
- 33 candidatos a deputado estadual;
- 19 candidatos a deputado federal;
- 2 candidatos ao Senado;
- 1 candidato a governador;
- 1 suplência ao Senado.
Constantino afirmou que, embora a crise institucional gere instabilidade e possa afetar mobilizações, o trabalho de organização eleitoral das comunidades segue em frente, com ajustes táticos quando necessário.
Em síntese, as organizações ouvidas defendem a investigação rigorosa dos fatos relacionados à Operação Compliance Zero e a responsabilização de eventuais irregularidades, ao mesmo tempo em que pedem que esse processo não monopolize o debate público antes do pleito de outubro, para que temas de longo prazo — educação, ciência, clima, emprego e recursos estratégicos — não sejam esquecidos.
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via Agência Brasil
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