Autor: Camila Bohem — Publicado em: 17/09/2026 – 11:54 — Local: São Paulo
Um levantamento do centro de pesquisa Justa revela que, em 2025, os estados brasileiros destinaram R$103,5 bilhões às polícias, enquanto as políticas exclusivas para pessoas egressas do sistema prisional receberam apenas R$19 milhões. Segundo o estudo, para cada R$5.423 aplicados nas polícias, foram R$1.169 para o sistema prisional e apenas R$1 para programas voltados à saída e reinserção social.
O relatório, intitulado “O Funil de Investimentos da Segurança Pública nos Estados Brasileiros”, foi apresentado em 17 de setembro durante o 20º Encontro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. A pesquisa analisou a distribuição orçamentária de 26 unidades federativas; o estado do Acre não forneceu dados.
Desigualdade crescente na alocação de recursos
Na comparação com a edição anterior, que avaliou dados de 2024, a concentração de recursos na entrada do sistema de justiça criminal se acentuou. Em 2024, a proporção era de R$4.877 para as polícias, R$1.221 para o sistema penitenciário e R$1 para políticas de egressos.
Segundo Taciana Santos, coordenadora de pesquisas do Justa, a priorização orçamentária das polícias não garante necessariamente mais segurança pública e está relacionada a dinâmicas políticas que elevam o investimento em policiamento ostensivo.
Como foi gasto o orçamento das polícias
O total dos gastos estaduais com as polícias subiu de R$87,5 bilhões em 2024 para R$103,5 bilhões em 2025. Dentro desse montante, as Polícias Militares — responsáveis pelo policiamento ostensivo — concentraram R$60,7 bilhões, o equivalente a 58,6% do orçamento total das polícias. As Polícias Civis receberam R$22,2 bilhões (21,5%) e as Polícias Técnico-Científicas R$2,8 bilhões (2,7%). Outros R$17,8 bilhões foram classificados como despesas compartilhadas entre corporações.
A pesquisa observa que a alocação privilegia o policiamento ostensivo em detrimento de investigação e inteligência, o que, na avaliação de especialistas consultados pelo estudo, contribui para um modelo de encarceramento em massa com deficiência na apuração de autoria e na produção de provas.
Gastos com o sistema prisional e desigualdade racial
Em 2025, os estados aplicaram R$22,3 bilhões no sistema prisional. Do total, aproximadamente R$13,7 bilhões foram vinculados ao encarceramento de pessoas negras — cerca de R$6 a cada R$10 investidos na área, segundo cruzamento feito pelo Justa entre os gastos estaduais e os dados do Sistema Nacional de Informações Penais (Sisdepen) de dezembro de 2025.
Embora o montante global do sistema penitenciário tenha permanecido próximo ao observado em 2024 (R$21,9 bilhões), o estudo aponta que os acréscimos orçamentários têm sido majoritariamente direcionados à expansão da infraestrutura carcerária. Por outro lado, despesas relacionadas a alimentação, saúde e outras condições de encarceramento vêm sofrendo cortes, o que, segundo a diretora-executiva do Justa, Luciana Zaffalon, agrava a precarização dentro das unidades e limita a capacidade do Estado de enfrentar o crime organizado de forma efetiva.
Porta de saída: políticas para egressos pouco financiadas
O levantamento mostra estagnação dos recursos voltados à reinserção de pessoas egressas: R$19 milhões em 2025 ante R$18 milhões em 2024. Em 2025, apenas sete unidades federativas registraram investimentos exclusivos nessa área — uma melhora marginal em relação às seis que registraram em 2024.
Os estados que passaram a registrar dotações exclusivas para egressos em 2025 incluem o Rio Grande do Sul (R$414 mil) e Santa Catarina (R$177 mil). São Paulo concentrou a maior parte dos recursos identificados pelo levantamento, com R$13,3 milhões; seguem Ceará, com R$3,8 milhões; Mato Grosso, R$781 mil; Bahia, R$482 mil; e Sergipe, R$19 mil. Tocantins chegou a aprovar dotação na Lei Orçamentária Anual, mas não executou os recursos na área.
O estudo ressalta que políticas para egressos — que podem facilitar acesso a documentação, moradia, saúde, educação, emprego e renda — são essenciais para reduzir barreiras à reconstrução de vida após o cumprimento da pena e, consequentemente, diminuir riscos de reincidência. A pesquisa conclui que, ao concentrar bilhões na entrada e manutenção no sistema prisional e destinar valores residuais à saída, os estados limitam as chances de reinserção social.
Metodologia: o levantamento compilou informações orçamentárias estaduais de 2024 e 2025 e cruzou os gastos do sistema prisional com dados do Sisdepen de dezembro de 2025 para estimar a parcela destinada ao encarceramento de pessoas negras.
via Agência Brasil
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