Apostas online crescem entre jovens e elevam risco de dependência e endividamento

Apostas online crescem entre jovens e elevam risco de dependência e endividamento

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Relatos de grupos de apoio e pesquisas indicam aumento das procura por ajuda entre adolescentes e jovens adultos com problemas relacionados a apostas online. Em Brasília, a repórter Ana Lúcia Caldas apurou depoimentos de quem sofreu prejuízos financeiros e de profissionais que alertam para a vulnerabilidade dessa faixa etária diante do fácil acesso a plataformas de apostas pelo celular.

Histórico pessoal: Gustavo Pereira, 24 anos, começou a apostar online aos 18 e, em seis anos, chegou a perder cerca de R$ 500 mil. Há aproximadamente dois meses sem apostar, ele passou a vender café nas ruas de Lages (SC) como forma de recomeço e compartilha nas redes sociais a rotina de superação do vício.

“Ganhava muito bem na época, já fiz R$ 10 mil virarem R$ 300 mil… e perdi tudo. O dinheiro começou a perder valor para mim, eu comecei a perder a dimensão do dinheiro… o vício te enche de ganância.” — Gustavo Pereira

Outros frequentadores da irmandade Jogadores Anônimos confirmam o perfil e a gravidade do problema: Luiz Carlos, 71 anos, conta ter iniciado no jogo na década de 1980 e lembra que, hoje, “você carrega um cassino dentro do seu bolso”. Ele está 15 anos abstinente. Entre os que buscam apoio atualmente, há pessoas que informam meses ou anos de sobriedade — exemplos incluem Carla Xavier, Rogério e Rodrigo, com tempos de abstinência variando de seis meses a mais de um ano.

Dados e estudos

Estudos nacionais e internacionais citados por especialistas mostram escala e impacto da expansão das apostas online:

  • Relatório do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (IBICT): pelo menos 24 milhões de brasileiros apostaram em bets em 2024; quase metade desses apostadores ficou endividada.
  • Dados da Unicef (2021): em nível mundial, uma em cada cinco pessoas começa a apostar em jogos online até os 11 anos; a participação sobe para 78% a partir dos 12 anos.
  • Pesquisa divulgada pela Frente Parlamentar Mista de Educação (2026): entre 1.912 estudantes do ensino fundamental e médio, 9,5% fizeram a primeira aposta aos 11 anos; quase metade dos entrevistados do 3º ano do ensino médio relatou ter apostado.
  • Pesquisa da Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES): 34% dos entrevistados disseram que precisariam interromper gastos com apostas para começar uma graduação em 2026; entre universitários, 14% atrasaram mensalidades ou trancaram o curso por causa das apostas.

O IBICT também identificou que canais digitais voltados ao público infantil e influenciadores são utilizados para promover apostas ilegais, explorando a falta de maturidade financeira de crianças e adolescentes.

Vulnerabilidade dos jovens

A psicóloga Mariana Kehl, membro da Sociedade Brasileira de Psicologia, explica que a diferença no desenvolvimento cerebral torna adolescentes mais suscetíveis às recompensas imediatas oferecidas pelas apostas. Segundo ela, enquanto o sistema de recompensa (ligado à dopamina) está em fase intensa de funcionamento, as áreas que regulam impulsos e avaliação de risco amadurecem apenas no início da vida adulta.

“O adolescente sente intensamente o prazer de ganhar uma aposta, mas ainda não dispõe do aparato para frear o impulso da aposta seguinte.” — Mariana Kehl

Consequências financeiras e de saúde

Especialistas destacam que as apostas online não são investimentos, mas despesa de alto risco. Tiago Braga, diretor do IBICT, afirma que o consumo crescente com apostas reduz recursos para necessidades básicas e projeta aumento do endividamento, com impacto potencial sobre saúde mental e risco de ideação suicida associado a dívidas decorrentes do jogo.

“Quanto mais você aposta ou gasta recursos com a aposta, menos terá para o seu futuro — aluguel, comida, educação.” — Tiago Braga

Medidas legais e de proteção

Para ampliar a proteção de crianças e adolescentes no ambiente digital, foi sancionado em setembro de 2025 o Estatuto Digital da Criança e do Adolescente (ECA Digital), conhecido como Lei Felca, que entrou em vigor em março de 2026. Entre as principais mudanças previstas estão a responsabilidade compartilhada entre plataformas, famílias e Estado, exigência de mecanismos de verificação de idade mais robustos e restrições ao acesso de menores a produtos semelhantes a jogos de azar.

  • Proibição de apostas online para menores de 18 anos.
  • Menores de 16 anos só podem usar redes sociais vinculadas a responsáveis.
  • Proibição de loot boxes (caixas com itens aleatórios pagos) em conteúdos direcionados a crianças e adolescentes.

Especialistas em direito digital, como o advogado Felipe Moreira, defendem que a legislação é adequada, mas ressalvam que a eficácia depende da regulamentação e da fiscalização por parte do poder público e das plataformas.

Prevenção e responsabilidade institucional

Paulo Chanan, diretor‑geral da ABMES, recomenda que instituições de ensino atuem com prevenção, orientação e encaminhamento para serviços de saúde quando necessário, sem atribuir às universidades a responsabilidade exclusiva pelo problema. Ações coordenadas entre educação, saúde, regulação e políticas públicas são apontadas como imprescindíveis.

A advogada Luana Mendes alerta para a importância do controle parental entendido como educação digital: orientar crianças sobre privacidade, identificar situações de risco e manter diálogo de confiança para que elas denunciem comportamentos abusivos online.

Como buscar ajuda

Grupos de apoio, serviços de saúde mental e linhas de acolhimento podem oferecer suporte a quem enfrenta dependência de apostas. Entrevistados relataram que a busca por tratamento costuma acontecer quando os débitos e os impactos na vida pessoal e profissional já são significativos.

Observação: alguns entrevistados tiveram os sobrenomes omitidos a pedido.

Colaborou: Luciene Cruz

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via Agência Brasil

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