Rio de Janeiro — 30/08/2026. Duas instituições públicas brasileiras entraram em um consórcio internacional que pretende identificar alvos terapêuticos capazes de levar, no futuro, à cura da hepatite B.
O estudo é coordenado pela Faculdade de Medicina da Universidade Johns Hopkins (EUA) e reúne grupos de pesquisa do Brasil, Índia, Senegal e Uganda. No Brasil, participam o Hospital Universitário Cassiano Antônio Moraes da Universidade Federal do Espírito Santo (Hucam–Ufes) e a Universidade de São Paulo (USP).
Escopo e metodologia
A investigação global acompanhará, em nível celular, o comportamento do vírus e as respostas do sistema imunológico em pacientes de diferentes regiões. Serão observados 600 participantes no total — 150 por país — por cerca de quatro anos e meio cada. O desenho do estudo combina pesquisa básica laboratorial com acompanhamento clínico.
No Brasil, a equipe da professora Tânia Reuter, do Hucam–Ufes, ficará responsável por analisar 75 pacientes. O recrutamento local começou em julho de 2026: até agora 40 pessoas foram incluídas e a expectativa é completar as 75 vagas até o fim do ano; o período de inclusão previsto pela pesquisa segue até meados de 2027. A duração estimada do braço brasileiro do estudo é de aproximadamente cinco anos.
Objetivos científicos
Os pesquisadores querem entender por que a infecção pelo vírus da hepatite B (HBV) evolui de formas diferentes entre os pacientes, identificar características genéticas que possam conferir proteção contra progressão rápida da doença e detectar subpartículas virais que funcionem como preditores de cura ou de resposta ao tratamento.
Segundo Reuter, a meta é descobrir alvos biológicos que possam ser explorados no desenvolvimento de fármacos — por exemplo, agentes que estimulem ou modularem a resposta imune — e, assim, contribuir para estratégias de cura ou manejo mais eficazes da hepatite B.
O estudo também incluirá pacientes coinfectados por hepatite B e HIV, o que permitirá comparar respostas imunológicas e trajetórias clínicas entre diferentes perfis de infecção.
Importância para saúde pública
A hepatite B é uma infecção viral que atinge o fígado, ainda sem cura definida, e cuja progressão pode levar à cirrose, ao carcinoma hepatocelular (câncer primário de fígado) e ao óbito. Dados da Organização Mundial da Saúde apontavam, em 2024, que cerca de 240 milhões de pessoas vivem com infecção crônica por HBV.
No Brasil, o Ministério da Saúde registra 276,6 mil casos confirmados entre 2000 e 2022. A Sociedade Brasileira de Clínica Médica ressalta que o vírus da hepatite B é muito mais contagioso que o HIV — estimado em cerca de 100 vezes mais transmissível em situações comparáveis.
A Organização Mundial da Saúde estabeleceu a meta de eliminar as hepatites virais como problema de saúde pública até 2030. Relatórios recentes indicam que as infecções por hepatites virais caíram 32% globalmente desde 2015, reflexo, entre outros fatores, do aumento da cobertura da vacinação infantil, que atingiu 84% em 2024.
Prevenção e recomendações
Vacinação é a principal medida preventiva. No Sistema Único de Saúde (SUS), a vacina contra hepatite B está disponível para todas as pessoas não vacinadas, independentemente da idade. Para lactentes, o esquema recomendado é de quatro doses (ao nascer, aos 2, 4 e 6 meses). Em adultos, o esquema habitual é de três doses.
- Usar preservativos em todas as relações sexuais;
- Não compartilhar objetos perfurocortantes nem itens de uso pessoal que possam estar contaminados com sangue;
- Gestantes devem ser acompanhadas para reduzir o risco de transmissão vertical durante a gravidez e o parto.
O consórcio internacional e o braço brasileiro do estudo prometem trazer dados detalhados sobre mecanismos de proteção e progressão da infecção, informação que poderá orientar futuras terapias com potencial de alterar o curso da hepatite B.
via Agência Brasil