Por Gopal Sharma, Saurabh Sharma e Ethan Wang — Catmandu e Pequim, 31/08/2026
Equipes de resgate do Nepal, auxiliadas por especialistas da China e da Índia, intensificaram as operações nesta segunda-feira para tentar alcançar centenas de trabalhadores que se acredita estarem presos dentro de túneis de projetos hidrelétricos soterrados por uma enxurrada provocada pelo colapso de uma geleira.
O desastre, ocorrido na quarta-feira, 26 de agosto, lançou uma massa de gelo, rochas, lama e detritos montanha abaixo na região de fronteira entre o Nepal e o Tibete, provocando destruição em cidades e vilarejos dos vales. Autoridades nepalesas informaram que, até esta segunda-feira, 903 pessoas foram confirmadas mortas e 4.247 estão desaparecidas — número que inclui 933 trabalhadores considerados presos em 11 projetos hidrelétricos nos distritos de Rasuwa e Nuwakot.
Cenas divulgadas pelas equipes mostram máquinas de terraplenagem trabalhando sob holofotes durante a noite, escavando lama e pedras, enquanto soldados utilizaram lanternas para vasculhar um grande buraco aberto na tentativa de localizar uma entrada para um dos túneis. Socorristas conseguiram recuperar três corpos após entrarem em dois túneis; outras seções permanecem soterradas e continuam sendo escavadas.
O Exército do Nepal informou que as operações empregam explosões controladas, escavadeiras e iluminação intensa para retirar água, lama e detritos e permitir o acesso às galerias inundadas. “Uma grande quantidade de escombros se acumulou, o que está representando enorme desafio para abrirmos os túneis”, disse o porta-voz do Exército, Raja Ram Basnet. “Nosso foco principal é abrir os túneis.”
Do lado chinês, autoridades contabilizaram 16 mortos e 546 desaparecidos no condado de Gyirong. Pequim também afirmou que 261 cidadãos estrangeiros de 23 países estão desaparecidos no Tibete, próximo a um ponto de passagem importante na fronteira com o Nepal. A Cruz Vermelha estimou que mais de 90 mil pessoas provavelmente foram afetadas pelo desastre.
As operações de busca têm sido interrompidas em vários momentos devido ao mau tempo e pela preocupação com um lago formado na fronteira que começou a transbordar para rios do Nepal — risco que pode provocar novas inundações. A televisão estatal chinesa informou que geleiras próximas a uma cratera de impacto, originada pelo colapso inicial, seguem com risco de desabamento.
O primeiro-ministro Balendra Shah qualificou a enchente como um “desastre natural sem precedentes e devastador” e afirmou que ainda é difícil compilar um balanço completo dos danos. Embora o governo nepalês tenha dito que não precisa de ajuda estrangeira para as operações gerais, o país tem contado com a experiência chinesa e indiana em resgates em túneis.
Contexto sobre hidrelétricas e riscos glaciares
Desde o início do século, o Nepal tem expandido projetos hidrelétricos para aproveitar o potencial hídrico do Himalaia, tanto para suprir a demanda doméstica quanto para venda de energia a países vizinhos. As usinas de encosta dependem de túneis para conduzir água por trajetos subterrâneos e explorar a forte queda de altitude típica da região.
Especialistas destacam que o fenômeno de rompimento de geleiras e o consequente acúmulo de água e detritos podem gerar cheias súbitas conhecidas em termos técnicos por transbordamentos de lagos glaciais, que já vinham sendo apontados como risco crescente em áreas montanhosas diante do aquecimento climático e da instabilidade das massas de gelo.
As autoridades seguem mobilizadas nas buscas, enquanto equipes de engenharia avaliam a estabilidade das geleiras remanescentes e as condições dos túneis enterrados, na tentativa de reduzir novos riscos para as populações ribeirinhas e prosseguir com as operações de resgate.
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via Agência Brasil