São Paulo — 01/09/2026. Um levantamento do Instituto Update sobre os programas de 12 candidaturas à Presidência identificou que propostas dirigidas especificamente às mulheres aparecem em candidaturas de diferentes espectros políticos, mas concentram-se principalmente em temas como violência, saúde e políticas de cuidado.
A análise considerou apenas medidas explicitamente voltadas às mulheres; políticas universais de emprego, saúde, educação, transporte ou segurança não foram automaticamente classificadas como políticas para mulheres quando não havia recorte de gênero claro.
Segundo o instituto, os planos raramente tratam as mulheres como agentes de poder: há mais medidas que as colocam como destinatárias de ações do que iniciativas para ampliar sua participação política ou presença em espaços de decisão.
Metodologia e avaliação geral
Foram examinados 12 programas presidenciais. O estudo diferenciou a mera menção a um tema da existência de propostas estruturadas, observando que muitas referências carecem de metas, instrumentos, prazos ou articulação com políticas já existentes.
Para a diretora executiva do Instituto Update, Carol Althaller, os documentos reconhecem problemas que afetam diretamente as mulheres, mas avançam pouco na inclusão delas como sujeitos de decisão e na consideração de sua experiência cotidiana de forma abrangente.
Participação política
A pesquisa aponta que, embora a promoção da representação feminina seja apoiada por parcela expressiva do eleitorado feminino, essa pauta está pouco presente nos programas. Na pesquisa Mulheres em Diálogo (2025), 72% das entrevistadas manifestaram concordância plena com o aumento da representação feminina em cargos políticos.
Apenas um dos 12 candidatos apresentou uma proposta específica sobre participação político-eleitoral feminina — incluindo combate à violência política de gênero, formação de candidatas e lideranças e regras sobre financiamento partidário. Ao ampliar o critério para iniciativas que incentivem mulheres a ocupar espaços de liderança, um segundo candidato passa a contemplar a questão, com propostas de fomento à liderança feminina e compromisso de indicar mulheres para vagas no Supremo Tribunal Federal.
Violência contra as mulheres
A agenda de enfrentamento à violência contra a mulher é a mais recorrente: 9 dos 12 planos (75%) trazem propostas explícitas sobre violência de gênero, feminicídio ou proteção às vítimas. Se forem incluídas medidas sobre violência doméstica sem recorte de gênero, esse número sobe para 10 de 12.
Entre as medidas apontadas pelos programas analisados estão:
- ampliação de redes de proteção e casas-abrigo;
- integração entre segurança pública, Justiça, saúde e assistência social;
- monitoramento eletrônico de agressores;
- medidas protetivas e endurecimento penal.
O instituto observa, porém, que os programas tendem a enquadrar a mulher sobretudo como vítima, sem incorporar suficientemente a insegurança que limita sua circulação na cidade. Apenas um candidato relaciona de forma explícita a segurança das mulheres com a mobilidade urbana e o transporte.
Pesquisa conjunta do Instituto Update e do Instituto Fogo Cruzado (2026), intitulada Mulheres, Polícia e Facções, aponta que 79% das mulheres relatam sentir medo ao sair à noite, 59% já deixaram de frequentar determinados lugares por insegurança e 31,4% deixaram de usar algum meio de transporte pelo mesmo motivo. Esses dados ampliam a noção de segurança para além do policiamento, incluindo iluminação, transporte e cuidado com áreas públicas.
Autonomia econômica
Sete dos 12 programas (58%) apresentam propostas relacionadas à autonomia econômica das mulheres — abrangendo trabalho, renda, crédito, empreendedorismo ou proteção social. Em cinco desses planos há menção explícita à igualdade salarial entre homens e mulheres para cargos equivalentes.
Na pesquisa Mulheres em Diálogo (2025), 94% das entrevistadas concordaram que homens e mulheres devem receber o mesmo salário por trabalho equivalente. O levantamento do Update conclui que existe convergência sobre a importância da autonomia, mas divergência sobre os meios para alcançá-la: para alguns candidatos, a ênfase está em salários e proteção social; para outros, em acesso ao crédito, educação financeira e estímulo ao empreendedorismo.
Políticas de cuidado
Também em sete dos 12 planos (58%) aparecem de forma explícita creches ou políticas de cuidado vinculadas à vida econômica e social das mulheres. Em alguns projetos o cuidado é tratado como infraestrutura pública para liberar tempo, ampliar participação no mercado de trabalho e reduzir desigualdades. Em outros, o foco recai sobre maternidade e proteção da família.
O instituto destaca que a principal convergência é o reconhecimento de que políticas de cuidado impactam diretamente a autonomia feminina; a disputa reside em quem deve assumir essas responsabilidades e qual o papel do Estado.
Conclusão
Em síntese, os programas presidenciais avaliados incluem com frequência pautas de proteção e assistência às mulheres, mas menos propostas que assegurem sua presença em espaços de poder ou que articulem políticas públicas com foco na experiência cotidiana feminina — especialmente no que se refere a segurança urbana e mobilidade. O estudo aponta a necessidade de transformar menções em medidas detalhadas com metas, instrumentos e integração intersetorial.
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via Agencia Brasil
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