ONU: aquecimento além de 1,5°C ameaça saúde, agricultura e economia

ONU: aquecimento além de 1,5°C ameaça saúde, agricultura e economia

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Por Rafael Cardoso — Rio de Janeiro, 02/09/2026 — 20:11

As Nações Unidas anunciaram nesta quarta-feira (2) que a Terra deverá ultrapassar o patamar de aquecimento de 1,5°C em relação aos níveis pré‑industriais nos próximos anos. Cientistas e líderes de organizações ambientais alertam que essa ultrapassagem tornará mais frequentes eventos extremos como ondas de calor, secas históricas, chuvas intensas e perdas agrícolas, com impactos diretos sobre a saúde pública e a economia mundial.

André Guimarães, diretor executivo do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), classificou o resultado como um sinal de fracasso coletivo e afirmou ser necessária uma mudança urgente de rumo.

Segundo Guimarães, é imprescindível reduzir rapidamente a queima de combustíveis fósseis, interromper a conversão de florestas e rever, de forma ampla, a relação humana com a natureza para evitar cenários mais graves.

Em debate promovido pelo Instituto Clima e Sociedade (iCS), Thelma Krug — presidente do Comitê Diretor do Sistema Global de Observação do Clima (GCOS) da Organização Meteorológica Mundial (OMM) — ressaltou que a gravidade dos impactos dependerá tanto da intensidade quanto da duração do aquecimento acima de 1,5°C. Quanto maior e mais prolongado o aquecimento, maior será a necessidade de remover dióxido de carbono da atmosfera e mais difícil será reverter o processo.

Krug informou que a temperatura média global está atualmente em torno de 1,37°C acima dos níveis pré‑industriais e que a taxa média de aquecimento é de cerca de 0,26°C por década. Com o ritmo atual das emissões, ela estimou que restariam cerca de três a quatro anos para limitar o aumento dentro do objetivo de 1,5°C.

Impactos econômicos e necessidade de investimentos

O economista Sergio Margulis, do Instituto Internacional para Sustentabilidade (IIS) e professor da PUC‑Rio, destacou que os prejuízos já mensurados em infraestrutura, agricultura, saúde e energia equivalem a aproximadamente 2% do Produto Interno Bruto (PIB) global.

Margulis defende que a transição energética precisa ser acelerada: hoje o mundo investe cerca de 2 trilhões de dólares em descarbonização, mas será necessário elevar esse montante para algo como 5 trilhões de dólares ou mais para reduzir os impactos futuros.

Ele alertou que, embora investimentos em adaptação sejam necessários para reduzir danos imediatos, a mitigação — ou seja, a diminuição das emissões na origem — é essencial para enfrentar o problema físico do aquecimento global.

Alerta político e calendário internacional

Claudio Angelo, coordenador de política internacional do Observatório do Clima, resumiu o relatório da ONU como um sinal de urgência política: abandonar o objetivo de limitar o aquecimento a 1,5°C seria comprometer o bem‑estar coletivo. Para ele, o pico das temperaturas e a posterior queda não ocorrerão enquanto países produtores de combustíveis fósseis continuarem a tratar essas indústrias como vantajosas, em vez de reconhecer os danos.

Angelo apontou que a interrupção da expansão dos combustíveis fósseis no mundo é imediata e que a Conferência das Partes do Clima (COP31), prevista para ocorrer em cerca de dois meses, representa uma oportunidade decisiva para que governos adotem medidas mais ambiciosas.

Especialistas presentes ao evento reforçaram que, além de metas de curto prazo para reduzir emissões, será preciso combinar ações de mitigação, remoção de carbono, financiamento da transição energética e políticas de adaptação para proteger populações vulneráveis e setores econômicos críticos.

Os especialistas também destacaram que, sem mudanças rápidas e profundas, os impactos sobre segurança alimentar, infraestrutura urbana e sistemas de saúde tenderão a se intensificar, com custos sociais e econômicos crescentes nos próximos anos.

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via Agência Brasil

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