Brasília — 14/09/2026. A presidenta da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), Francilene Garcia, afirmou que a agenda científica continua ausente das discussões desta campanha eleitoral, deslocada pela cobertura dos recentes escândalos e pela polarização política, inclusive pelo chamado caso Master.
Francilene Garcia, professora e pesquisadora da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG) e à frente da SBPC desde 2025, avaliou que o foco imediato nas investigações e nas disputas pessoais tem empurrado para a periferia temas considerados estratégicos para o futuro do país — entre eles a transição energética, o aproveitamento e o processamento de minerais críticos presentes no subsolo brasileiro e o envelhecimento demográfico.
Segundo a presidenta da entidade, a ciência necessita de regras estáveis e orçamento previsível, elementos hoje pouco presentes na agenda eleitoral. Para tentar inserir propostas técnicas e de políticas públicas na campanha, a SBPC lançou o Observatório das Eleições, com mais de cem propostas direcionadas a áreas como mudanças climáticas, transformação digital e preparação para crises sanitárias.
O observatório conseguiu o engajamento de cerca de uma centena de candidaturas, disse Francilene, mas a adesão entre postulantes a cargos executivos foi mínima: apenas uma candidatura federal assumiu compromisso público com as propostas e não houve registros de compromisso formal por parte de candidatos a governador. Nos últimos dias, acrescentou, o ritmo de engajamento também perdeu força diante da centralidade dada à crise político-institucional.
Ela lembrou que, historicamente, a ciência costuma ficar fora do debate eleitoral, embora episódios recentes tenham concorrido para sua valorização pontual — a pandemia de covid-19 em 2020 e eventos climáticos extremos em 2024, como enchentes no Rio Grande do Sul, queimadas no Centro-Oeste e secas que afetaram regiões do Norte e Nordeste.
Francilene também ressaltou preocupações específicas que, na visão da SBPC, deveriam receber atenção imediata dos candidatos: o fortalecimento do Sistema Único de Saúde (SUS) para responder a futuras pandemias, a necessidade de melhorar coberturas vacinais frente à parcela da população que recusa imunizações, e a discussão sobre que tipo de soberania tecnológica o Brasil pretende construir diante dos avanços da inteligência artificial e da transformação digital.
Outro ponto destacado foi a importância estratégica das terras raras e outros minerais críticos para as cadeias de produção do setor digital. Para a presidenta da SBPC, debater o aproveitamento e o processamento desses recursos no país é parte essencial de um projeto de desenvolvimento que garanta maior agregação de valor e autonomia industrial.
Sobre o tratamento da crise institucional em curso, Francilene afirmou que a SBPC e outras entidades científicas têm defendido o respeito ao rito processual e ao amplo direito de defesa. Ao mesmo tempo, criticou a prática de vazamentos seletivos de informações, que, segundo ela, politizam as investigações e contribuem para o esvaziamento de debates técnicos necessários ao planejamento de médio e longo prazo.
Por fim, a presidenta da SBPC alertou para a mudança demográfica que se avizinha: em pouco mais de uma década o país caminhará para ter mais pessoas com mais de 60 anos do que na faixa etária produtiva, cenário que, na avaliação da entidade, exige políticas públicas integradas sobre trabalho, previdência, saúde e ciência para garantir desenvolvimento e autonomia.
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via Agencia Brasil