Estados gastaram 5.423 vezes mais com polícias do que com políticas para egressos, aponta estudo

Estados gastaram 5.423 vezes mais com polícias do que com políticas para egressos, aponta estudo

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Por Camila Bohem — São Paulo. Publicado em 17/09/2026 – 11:54.

Uma pesquisa do centro de pesquisa Justa mostra que, em 2025, os governos estaduais gastaram R$ 5.423 com as polícias para cada R$ 1 destinado a políticas exclusivas para pessoas egressas do sistema prisional — uma diferença de 5.423 vezes. No mesmo ano, foram alocados R$ 1.169 para o sistema prisional para cada R$ 5.423 das polícias.

O levantamento, intitulado “O Funil de Investimentos da Segurança Pública nos Estados Brasileiros”, abrangeu 26 unidades federativas (o Acre não forneceu dados) e foi apresentado em 17 de setembro de 2026 no 20º Encontro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Comparação com 2024 e conceito do “funil”

Em relação à edição anterior, que avaliou 2024, a disparidade aumentou. No ano anterior, a relação era de R$ 4.877 para as polícias, R$ 1.221 para o sistema penitenciário e R$ 1 para políticas voltadas a egressos. Os autores descrevem a distribuição orçamentária como um “funil de investimentos”, em que recursos se concentram na entrada do sistema de justiça criminal e quase não chegam à saída.

“Esse crescimento de gasto com polícias está associado ao crescimento da bancada da bala e do populismo penal na política, como observamos pelo número de candidatos que se elegem instrumentalizando a insegurança como principal bandeira eleitoral”, disse Taciana Santos, coordenadora de pesquisas do Justa.

Orçamento das polícias

O total gasto com polícias nos estados saltou de R$ 87,5 bilhões em 2024 para R$ 103,5 bilhões em 2025. Dentro desse montante, a distribuição foi fortemente concentrada no policiamento ostensivo:

  • Polícias Militares (patrulhamento e policiamento ostensivo): R$ 60,7 bilhões (58,6% do total das polícias);
  • Polícias Civis (investigações): R$ 22,2 bilhões (21,5%);
  • Polícias Técnico-Científicas (perícias e produção de provas): R$ 2,8 bilhões (2,7%);
  • Despesas compartilhadas entre corporações: R$ 17,8 bilhões.

Segundo a diretora-executiva do Justa, Luciana Zaffalon, a priorização do policiamento ostensivo em detrimento de investigação e inteligência contribui para um modelo de encarceramento em massa e fragiliza a apuração de autoria e a produção de provas.

Orçamento do sistema prisional e recorte racial

Os estados gastaram R$ 22,3 bilhões com o sistema prisional em 2025, valor próximo aos R$ 21,9 bilhões de 2024. Do total de 2025, cerca de R$ 13,7 bilhões foram relacionados ao encarceramento de pessoas negras — equivalente a R$ 6 de cada R$ 10 investidos no sistema penitenciário. Para essa estimativa o Justa cruzou despesas estaduais com dados do Sistema Nacional de Informações Penais (Sisdepen) de dezembro de 2025.

“Os dados evidenciam uma realidade sistêmica: o Brasil prende muito e prende mal. A grande maioria das pessoas presas é pobre e preta, que acabam sendo entregues no sistema prisional às facções. Enquanto isso, os órgãos de segurança pública seguem com baixa capacidade de combater o crime organizado com eficiência”, afirmou Luciana Zaffalon.

O estudo aponta também que os aumentos observados nas rubricas do sistema prisional têm sido direcionados principalmente à expansão da infraestrutura carcerária, ao passo que despesas ligadas a condições de encarceramento — como alimentação e saúde — têm sofrido redução, o que, segundo a pesquisa, amplia precarização e riscos à garantia de direitos.

Políticas para egressos: estagnação e poucas iniciativas

A pesquisa identificou investimento quase simbólico nas políticas para egressos: R$ 19 milhões em 2025, ante R$ 18 milhões em 2024. Apenas sete estados registraram destinações exclusivas para esse fim em 2025 (eram seis em 2024). Entre as ações consideradas para egressos, estão iniciativas de apoio à obtenção de documentação, moradia, saúde, educação, trabalho e geração de renda.

Estados que registraram investimentos exclusivos em 2025 e os valores levantados pelo estudo:

  • São Paulo: R$ 13,3 milhões;
  • Ceará: R$ 3,8 milhões;
  • Mato Grosso: R$ 781 mil;
  • Bahia: R$ 482 mil;
  • Rio Grande do Sul: R$ 414 mil (não havia investimento exclusivo em 2024);
  • Santa Catarina: R$ 177 mil (passou a investir em 2025);
  • Sergipe: R$ 19 mil.

O levantamento também aponta que Tocantins, que constava com dotação aprovada na Lei Orçamentária Anual em 2024, não utilizou a verba destinada a políticas para egressos em 2025. O Acre não forneceu informações para a pesquisa.

“Como elementos fundamentais da segurança pública, as políticas para egressos permitem apoiar o acesso a documentação, moradia, saúde, educação, trabalho e renda, reduzindo barreiras para a reconstrução da vida após o cumprimento da pena”, destacou Zaffalon.

O estudo conclui que a concentração de recursos na porta de entrada (policiamento e encarceramento) e a escassez de investimentos na saída (políticas de reinserção) limitam as possibilidades de reintegração social e podem criar condições que favoreçam a reincidência.

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via Agencia Brasil

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