Rio de Janeiro — 21/09/2026. Por Lara Mansur e Letícia Vieira, Rádio UFRJ.
Praticantes de religiões de matriz africana e afro-brasileira dizem não se sentir contemplados nas campanhas eleitorais de 2026, apesar do crescimento da adesão a essas crenças nas últimas décadas, aponta reportagem com entrevistas a religiosos e especialistas.
O último censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) registrou que o número de pessoas que declararam seguir uma fé afro-brasileira triplicou entre 2010 e 2022, chegando a 1,8 milhão.
Mesmo com esse aumento, representantes do segmento afirmam que são raras as propostas direcionadas ou o diálogo direto de candidaturas com os terreiros e demais espaços religiosos de matriz africana. Para a advogada e umbandista Lívia dos Santos, a ausência nas agendas de campanha tem raízes na intolerância histórica contra esses cultos.
“É muito difícil a gente, que é de religião de matriz africana, se ver representado pelos políticos.”
Segundo Lívia, a marginalização e a criminalização de práticas tradicionais impedem que muitos políticos conheçam ou valorizem essas religiões, o que reforça a exclusão.
“A gente tá falando, em uma última análise, de uma sociedade que não se permite conhecer essas religiões, justamente por todo o histórico de marginalização, criminalização dos povos que sempre cultuaram o orixá.”
O combate à intolerância religiosa é apontado pelo segmento como uma pauta essencial para a democracia. O artigo 208 do Código Penal tipifica a discriminação religiosa e prevê pena de um a três anos para quem praticar esse crime.
Em números relativos ao cenário mais amplo, católicos e evangélicos ainda compõem a maior parte da população religiosa no país — cerca de 80% dos brasileiros —, mas especialistas dizem que o menor contingente numérico não justifica a negligência eleitoral.
O pai de santo e pesquisador Leonardo Vieira, do Grupo de Pesquisas sobre Povos de Terreiro da Universidade Federal Fluminense (UFF), afirma que existe um preconceito que subestima a capacidade política dos povos de terreiro.
“Há nichos da política que ainda concebem os povos de terreiro como inferiores.”
Vieira ressalta que a organização dos terreiros envolve práticas comunitárias e coletivas — em áreas como economia, saúde e educação — e configura uma forma própria de atuação política. Por isso, segundo ele, candidatos que pertencem ao segmento ou que se aproximam dele tendem a obter apoio desses eleitores.
Pesquisadores também destacam que a dinâmica eleitoral costuma aproveitar grandes eventos religiosos para mobilizar eleitores, mas que ações semelhantes são mais difíceis de articular nos terreiros devido ao receio de violência e ao estigma associado às religiões afro-brasileiras.
Denúncias de intolerância
Números do serviço Disque Direitos Humanos (Disque 100) indicam a persistência do problema: entre janeiro de 2025 e janeiro de 2026 foram registradas 2.774 denúncias relacionadas a intolerância religiosa. O serviço, vinculado ao Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, funciona 24 horas por dia, inclusive sábados, domingos e feriados, com atendimento gratuito e imediato.
As denúncias recebidas pelo Disque 100 são registradas, analisadas e encaminhadas aos órgãos competentes. Em situações de emergência, a recomendação é acionar a Polícia Militar pelo telefone 190.
O debate sobre representação política e enfrentamento à intolerância aparece como demanda central de lideranças e estudiosos das religiões afro em um ano de campanha, quando temas religiosos frequentemente entram na agenda pública.
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via Agencia Brasil
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