A artista portuguesa Grada Kilomba inaugura nesta terça-feira (22/09/2026) no Espaço Galpão do Sesc Pompeia, em São Paulo, a instalação O Barco, que denuncia as marcas deixadas pelo tráfico transatlântico de africanos escravizados. A peça faz um recorte sobre a violência sistemática que, ao longo de cerca de 400 anos, submeteu milhões de pessoas ao sequestro e à venda como mercadoria.
Dados históricos apontam que o Brasil foi o principal destino desses povos: mais de 4,8 milhões de africanos foram trazidos por navios negreiros para trabalho forçado. Em março de 2026, a Assembleia Geral das Nações Unidas aprovou resolução que reconheceu o tráfico transatlântico como o crime mais grave já praticado contra a humanidade — referência que orienta parte da leitura crítica proposta pela obra.
“Se esvaziássemos a água, o oceano e a terra em si iriam revelar uma série de trilhões de passagens de corpos humanos, não só no passado, mas no presente, em uma repetição da violência cíclica”, afirma Kilomba.
A instalação escultórica e performática ocupa uma área de 220 metros quadrados e se estende por 32 metros, composta por 134 blocos de madeira queimados dispostos de modo a desenhar a silhueta do casco e dos porões de uma grande embarcação. A configuração busca revelar a arquitetura interna desses espaços — projetados para amontoar corpos — e tornar visível o que normalmente permanece oculto nas narrativas públicas e monumentais.
Parte da obra precisou ser ajustada para caber no galpão do Sesc Pompeia; mesmo assim, mantém 18 blocos centrais com um poema gravado em tinta dourada, escrito pela própria artista e traduzido para iorubá, kimbundu, crioulo cabo-verdiano, português, inglês e árabe sírio. Trechos do verso dizem: “Uma alma, uma memória. Uma memória, um esquecimento. Um esquecimento, uma ferida.”
Intertextualidade e memória
O Barco resulta de pesquisa aprofundada em botânica, história e nas travessias transatlânticas e estabelece diálogo com a tragédia grega Antígona. Kilomba retoma a ideia de quem recebe honra, sepultamento e lembrança — e quem tem sua existência negada e esquecida. Para a artista, a omissão intencional de episódios de violência histórica alimenta repetições de barbárie no presente.
“Esta obra também vem em sequência dessa obra Antígona, que questiona quem é que pode ser enterrado e quem não, quem é que pode ser lembrado e tem um lugar para ser chorado e para ser celebrado e quem não”, diz a artista.
Kilomba amplia a metáfora do oceano como cemitério: além das mortes causadas pelo sistema escravista e pelo colonialismo, o mar continua a receber vítimas de guerras, crises climáticas e migrações forçadas — trajetórias contemporâneas que, segundo ela, repetem padrões de violência.
Itinerância e programação
O Barco já foi exibido em Lisboa e Londres e teve sua primeira exibição no Brasil no Instituto Inhotim, onde permaneceu por 28 meses. A itinerância pelo país levou a peça a diferentes contextos arquitetônicos e culturais; em São Paulo, a instalação integra uma mostra concebida pelo Instituto Inhotim e disponível gratuitamente até 25 de outubro de 2026.
No Sesc Pompeia, a obra é apresentada junto a outras criações de Grada Kilomba: a videoinstalação Opera to a Black Venus e a instalação Compressed Time. A montagem busca provocar o público a confrontar a história oficial com as histórias silenciadas e a questionar como memórias são construídas, celebradas ou apagadas.
Serviço: O Barco — Grada Kilomba. Local: Espaço Galpão, Sesc Pompeia, São Paulo. Período: de 22/09/2026 a 25/10/2026. Entrada gratuita.
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via Agência Brasil