Alopecia areata: pacientes relatam perda capilar, tratamentos e reconstrução da autoestima

Alopecia areata: pacientes relatam perda capilar, tratamentos e reconstrução da autoestima

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Brasília, 27/09/2026 — Pacientes com alopecia areata descrevem trajetórias marcadas pela queda de pelos, tentativas terapêuticas e estratégias para recuperar a autoestima. Especialistas afirmam que a doença é imprevisível e pode aparecer em qualquer fase da vida.

O que é e como se manifesta

Alopecia areata é uma condição autoimune em que o sistema imunológico ataca o folículo piloso, causando episódios de queda capilar. Segundo a Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD), a doença acomete cerca de 2% da população mundial.

Os padrões clínicos incluem:

  • pequenas áreas de calvície no couro cabeludo;
  • alopecia areata total, com perda de todo o cabelo do couro cabeludo;
  • alopecia areata universal, quando todos os pelos do corpo são afetados.

O diagnóstico é clínico, feito no consultório por avaliação das áreas sem pelos; não há, atualmente, exame laboratorial ou de imagem capaz de confirmar a condição isoladamente.

Gatilhos e aspecto emocional

Há um componente genético na alopecia, mas episódios podem ser desencadeados por fatores diversos, como infecções ou outras doenças autoimunes. Situações de estresse intenso podem precipitar crises em algumas pessoas, embora a condição não seja considerada exclusivamente psicossomática.

Médicos alertam que atribuir o surgimento da doença apenas ao aspecto emocional pode gerar culpa no paciente; por outro lado, o impacto sobre a imagem corporal e a autoestima é significativo e demanda acolhimento e suporte psicológico.

Experiências de pacientes

Beatriz Santos convive com a alopecia desde 2008. Ela descobriu a perda capilar ao preparar o cabelo para um casamento e relata busca longa por um tratamento adequado. Utilizou corticoides orais e aplicações no couro cabeludo, que trouxeram efeitos colaterais e dor nas aplicações. Um exame de densidade óssea, feito enquanto recebia corticoide, revelou osteopenia quando ela tinha 17 anos; após orientação de reumatologista, interrompeu o uso contínuo do medicamento.

Em 2012, quatro anos após o primeiro episódio, Beatriz passou a ter alopecia universal. Com o tempo, aprendeu técnicas de maquiagem para contornar a ausência de sobrancelhas, experimentou perucas sem sucesso e hoje opta por não disfarçar a condição. Acompanhamento psicológico a ajudou a ampliar interesses e a deixar de colocar a doença no centro da vida.

Juliana Fernandes, 45 anos, teve o primeiro surto aos 10 anos. Durante a adolescência, os tratamentos funcionavam, mas depois deixaram de surtir efeito. Em busca de entendimento e acolhimento, integrou um grupo de apoio há mais de duas décadas e realizou terapia por quatro anos, o que classificou como decisivo para aceitar a própria imagem.

Outros relatos incluem famílias que priorizam preservar a saúde das crianças diante do risco de efeitos adversos dos medicamentos. É o caso do garoto acompanhado por sua mãe, a psicóloga Regina Ramos, cujo primeiro episódio ocorreu aos 8 anos e evoluiu para alopecia universal sem resposta às terapias testadas.

Paloma Monteiro da Lava conta a experiência com o filho Levi, diagnosticado em maio de 2025 após um episódio febril. Levi, hoje com 5 anos, está no terceiro tratamento e, até o momento, não apresentou efeitos colaterais. A família decidiu acompanhar de perto eventuais riscos e interromper a medicação se houver prejuízo à saúde da criança. Paloma criou a campanha “Eu sou mais que aparência” para promover informação e fortalecer a autoestima do filho.

Tratamentos e riscos

Os pacientes relatam uso de corticoides em diferentes esquemas — injetáveis e orais — e pomadas ou cremes prescritos por dermatologistas. Especialistas ressaltam que, quando usados por longos períodos, corticoides podem provocar efeitos adversos relevantes, como redução da densidade óssea, exigindo monitoramento com exames periódicos.

Além dos medicamentos, estratégias de suporte incluem terapia psicológica, grupos de acolhimento e adaptações do dia a dia, como uso eventual de perucas, lenços e maquiagem.

Grupos de apoio e iniciativas locais

Em São Paulo, a dermatologista Enilde Borges Costa criou o Alopecia Areata Grupo de Apoio (AAGAP), que se reúne mensalmente e mantém um canal de troca de informações por WhatsApp. Espaços como esse ajudam pacientes e familiares a compartilhar experiências, acalentar dúvidas e reduzir o isolamento inicial após o diagnóstico.

Debate sobre direitos e projeto de lei

Em 2022 foi apresentada na Câmara dos Deputados a proposta de Lei 801/2022, que altera o Estatuto da Pessoa com Deficiência para incluir a alopecia areata. O projeto passou pela Comissão de Defesa das Pessoas com Deficiência e, na data desta publicação, aguarda análise na Comissão de Saúde da Câmara.

A inclusão no rol das deficiências visaria ampliar garantias e políticas públicas, como acesso a tratamentos e suporte psicológico. No entanto, pacientes ouvidas manifestam visões distintas: Beatriz Santos e Juliana Fernandes consideram que a alopecia, por alterar principalmente a aparência, não representa incapacidade que impeça o exercício pleno da vida; já profissionais de saúde e familiares defendem maior amparo público, citando o alto custo de algumas medicações e a necessidade de atendimento especializado.

Políticas municipais

Em São Paulo, uma lei municipal aprovada em 2025 instituiu um protocolo de atendimento a pacientes com alopecia areata, incluindo realização de exames e encaminhamento para acompanhamento psicológico gratuito, como iniciativa para reduzir barreiras ao tratamento e ao apoio emocional.

Conclusão

Pacientes e famílias que lidam com alopecia areata apontam que, além das opções terapêuticas, o acolhimento e o trabalho com a autoestima são fundamentais para a qualidade de vida. O debate sobre reconhecimento legal e acesso a tratamentos continua aberto, com propostas em tramitação no Congresso e iniciativas locais buscando ampliar o suporte a essa população.

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via Agência Brasil

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