No domingo, 27 de setembro de 2026, comunidades do Rio de Janeiro celebraram o Dia de Cosme e Damião com missas, distribuição de doces e ações sociais em igrejas e terreiros. As homenagens ocorreram, entre outros locais, na Paróquia de São Cosme e São Damião, no Andaraí, e no Terreiro de Umbanda Cosme e Damião, em Vila Isabel, ambos na zona norte da cidade.
A professora Caroline Pinho de Araújo, de 40 anos, recordou que a devoção aos santos começou na infância e se manteve entre práticas católicas e de umbanda. “Eu agradeço a eles meu emprego, minha saúde, a minha família”, disse ela, que participou da missa na paróquia e ajudou na distribuição de doces. Caroline afirmou que a ação anual traz alegria a crianças e adultos e funciona também como resposta a discursos de ódio e intolerância.
O vigário da paróquia, padre Luiz Gustavo Menezes do Nascimento, disse que acompanha as festividades desde a infância, quando costumava pegar doces. Em homilia, destacou o testemunho dos santos e lembrou que Cosme e Damião, martirizados no período das perseguições romanas, são lembrados até hoje: “1,7 mil anos depois, poder comemorar esses homens é motivo de graça”, afirmou. O padre também mencionou o imperador Diocleciano ao tratar das perseguições que, segundo ele, marcaram a cultura popular carioca.
Celebração nos terreiros e sincretismo
No Terreiro de Umbanda Cosme e Damião, em Vila Isabel, a programação incluiu distribuição de doces, bolo, cachorro-quente, algodão-doce, brinquedos e kits de higiene para crianças e adultos. A mãe de santo Ana Carolina Oliveira explicou que a família mantém a tradição há mais de 60 anos e que aquela foi a sexta edição realizada no terreiro.
A líder religiosa ressaltou a relação entre a devoção aos irmãos santos e o sincretismo religioso: as práticas católicas foram incorporadas por povos escravizados que precisaram adaptar rituais para preservar suas crenças. No universo das religiões de matriz africana, Cosme e Damião passam a ser associados a erês, entidades espirituais de natureza infantil.
A massoterapeuta Vania Victorio Gonçalves da Silva foi ao terreiro com a filha Natasha e a amiga Mirele, ambas de 14 anos, para receber os brindes. Vania afirmou que a celebração remete às tradições transmitidas por sua avó e por sua mãe: “Essa tradição é o resgate da nossa história, dos nossos ancestrais”, disse.
Mirele Marinho da Silva, estudante, comentou que sempre gostou de participar da distribuição de doces e considerou importante que a prática seja pública como forma de resistência à intolerância religiosa.
Origem e apelo cultural
O historiador e escritor Luiz Antonio Simas lembrou que, segundo a tradição, Cosme e Damião foram médicos cristãos do século 3 que atuaram na região hoje correspondente à Síria. De acordo com relatos históricos e populares, eles atendiam crianças gratuitamente e teriam sido martirizados durante as perseguições romanas. A devoção inclui também a oferta de doces às crianças doentes, um gesto ligado à ideia de levar alegria como parte do processo de cura.
As celebrações em igrejas e terreiros no Rio reforçaram, neste 27 de setembro, a combinação de memória religiosa, solidariedade e afirmação de identidade cultural — práticas que resistem às pressões de intolerância e preservam laços familiares e comunitários.
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via Agência Brasil
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