Na noite de 9 de setembro de 2026, a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) realizou no Salão Nobre do Fórum de Ciência e Cultura uma cerimônia de entrega de diplomas póstumos a 23 estudantes e dois professores que foram mortos ou desapareceram durante a ditadura militar. A ação foi apresentada pela instituição como forma de preservação da memória, reparação simbólica às famílias e reafirmação do compromisso com a democracia.
História de uma família
Entre os homenageados estava Fernando Augusto da Fonseca, estudante de Economia que, segundo relatos, foi levado a uma instalação do Exército em Recife, torturado por cerca de 20 dias e assassinado. Há 53 anos, enquanto ele era submetido a violência, sua esposa grávida e o filho de 3 anos permaneceram detidos em um hotel e foram liberados apenas após a entrega do corpo.
Fernando havia sido expulso da UFRJ por sua militância estudantil, o que o obrigou a deixar emprego e a vida no Rio. O diploma foi recebido pelo filho, André Luiz Araújo da Fonseca, administrador de 56 anos que hoje leciona na UFRJ. André afirmou que o documento representa a realização de um objetivo interrompido e que colocará o diploma do pai ao lado do seu.
Memória, verdade e justiça
O reitor da UFRJ, Roberto de Andrade Medronho, disse que a outorga póstuma reafirma o compromisso da universidade com a memória, a busca pela verdade e a reparação, acrescentando que lembrar desses casos é condição para defender a democracia no presente.
O jornalista Franklin Martins, que presidiu o Diretório Central dos Estudantes (DCE) da UFRJ em 1968, destacou o protagonismo de estudantes e professores na resistência ao autoritarismo e afirmou que o resgate dessas histórias deve inspirar e orientar as lutas sociais contemporâneas.
Malu Cerqueira, coordenadora-geral do DCE Mário Prata da UFRJ, apontou que a diplomação tem duplo significado: além de reparar simbolicamente as famílias, é uma tomada de posição política que reforça o tipo de memória que a universidade pretende preservar — a dos perseguidos e lutadores, e não de seus algozes.
Antecedentes e procedimento
Em julho de 2026 a universidade já havia concedido diploma póstumo ao estudante de Economia Stuart Angel Jones, torturado e morto em 1971; o documento então foi entregue à irmã dele, Hildegard Angel, pelo reitor Roberto Medronho. A seleção dos nomes homenageados na cerimônia de setembro foi elaborada pela Comissão da Memória e da Verdade da UFRJ com base em relatórios oficiais do país.
Homenageados
Lista dos 23 estudantes agraciados:
- Adriano Fonseca Fernandes Filho
- Ana Maria Nacinovic
- Antônio de Pádua Costa
- Antônio Teodoro de Castro
- Antônio Sérgio de Matos
- Arildo Airton Valadão
- Áurea Eliza Pereira Valadão
- Ciro Flávio Salazar e Oliveira
- Fernando Augusto da Fonseca
- Flávio Carvalho Molina
- Frederico Eduardo Mayr
- Guilherme Gomes Lund
- Hélio Luiz Navarro
- Jana Moroni Barroso
- José Roberto Spigner
- Kleber Lemos da Silva
- Luiz Alberto Andrade de Sá e Benevides
- Maria Célia Corrêa
- Maria Regina Lobo Leite Figueiredo
- Mário de Souza Prata
- Paulo Costa Ribeiro Bastos
- Solange Lourenço Gomes
- Sonia Maria Lopes de Moraes
Também receberam reconhecimento póstumo dois docentes cujo vínculo com a universidade e produção acadêmica foram destacados:
- Lincoln Bicalho Roque, professor do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais
- Raul Amaro Nin, pesquisador da Faculdade de Engenharia
A iniciativa foi apresentada pela UFRJ como parte de um esforço institucional para conservar a lembrança das violações cometidas durante a ditadura e oferecer algum nível de reparação simbólica às famílias das vítimas.
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via Agência Brasil
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