Em ato realizado em Brasília na quarta-feira, 26 de agosto de 2026, lideranças e ativistas negras apresentaram o “Manifesto Político das Mulheres Negras do Brasil: O Pacto do Bem Viver e as Eleições 2026”, coordenado pela Articulação de Organizações de Mulheres Negras Brasileiras (AMNB). O lançamento reuniu diferentes gerações para cobrar compromissos eleitorais voltados à igualdade, à justiça e à reparação histórica.
O texto propõe reorientar políticas públicas e a gestão pública para um modelo pautado no Bem Viver, com ênfase em justiça social, equidade e solidariedade, e coloca mulheres pretas e pardas como protagonistas — não apenas como destinatárias de programas de redução de desigualdades, mas como líderes, candidatas e gestoras.
Participantes destacaram que o manifesto funciona como um conjunto de diretrizes destinado a candidaturas e governos, para depois servir de parâmetro na cobrança e implementação de políticas.
As organizadoras afirmaram que a presença de mulheres negras em parlamentos e no Executivo deve ser tratada como prioridade, dada sua capacidade de gestão e de imaginar alternativas políticas.
Pacto do Bem Viver e a agenda por reparação
Jolúzia Batista, coordenadora nacional da Articulação de Mulheres Brasileiras (AMB), explicou que a iniciativa busca corrigir desigualdades estruturais oriundas de mais de três séculos de escravidão e ampliar a participação das mulheres negras na agenda pública. Segundo ela, a articulação está formulando plataformas políticas para apresentar propostas concretas aos candidatos e às candidatas.
Candidaturas, financiamento e representatividade
O documento também critica o racismo e o sexismo que marcam as campanhas e aponta a subvalorização das mulheres negras pelos partidos, incluindo a insuficiente destinação de recursos pelo Fundo Partidário e pelo Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC).
Segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), nas Eleições Gerais de 2026 havia 20.560 candidaturas registradas; no recorte por raça e cor, mulheres pretas somavam 1.234 candidaturas (6% do total) e mulheres pardas, 2.485 candidaturas (12,2%). Esses percentuais contrastam com a composição demográfica: a Pnad Contínua Anual 2021, do IBGE, apontou que 28,2% da população eram mulheres negras — cerca de 58 milhões de pessoas.
A promotora de Justiça Nádia Estela Ferreira Mateus, coordenadora de Combate ao Racismo e Todas as Outras Formas de Discriminação no Ministério Público de Minas Gerais, ressaltou o descompasso entre a presença da população negra e sua representação institucional. Pesquisa do Conselho Nacional do Ministério Público indica que, entre cerca de 13 mil membros do Ministério Público no país, apenas 0,7% (81 mulheres) são procuradoras e promotoras pretas.
Nádia Estela classificou o manifesto como uma convocação para transformar a sociedade, vinculando as reivindicações por reparação e justiça racial à consolidação de direitos previstos na Constituição de 1988.
Guerra híbrida e tecnoautoritarismo
Ao apresentar a lista de compromissos, as organizadoras situaram as eleições de outubro de 2026 em um contexto de «guerra híbrida» — no qual, segundo elas, há tentativas, em âmbitos nacional e internacional, de desconstruir direitos humanos e sociais e de atacar grupos historicamente marginalizados.
Janira Sodré, secretária-executiva da AMNB, chamou atenção para o que definiu como «tecnoautoritarismo»: o controle das grandes plataformas sobre a circulação de informações políticas, que, na visão da articulação, direciona e distorce o debate público. Ela também criticou narrativas que apresentam a perda de garantias trabalhistas e sociais como supostos avanços.
Janira afirmou que a estratégia adversária inclui o ataque a serviços públicos e a agentes que defendem direitos coletivos, além da presença de milícias, narcotráfico e grupos armados em territórios vulneráveis onde a população é majoritariamente negra.
Pacto intergeracional e ocupação de espaços
O ato reuniu mulheres pioneiras, de meia-idade e jovens, em uma proposta intergeracional para fortalecer a ocupação de espaços de decisão. Entre as participantes estava Caiene Reinier Freitas, mestranda, engenheira ambiental e sanitarista e bolsista do Instituto Baobá. Caiene, que é mulher trans, enfatizou a importância de jovens trans e travestis negras ocuparem universidades, parlamentos e cargos públicos, apesar da violência vivida por essa população.
O mapeamento da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), citado por participantes, indica que a expectativa de vida dessa população é cerca de 35 anos, muito inferior à das pessoas cis.
Para as participantes, ocupar espaços decisórios é o passo prático para transformar representação simbólica em poder real e políticas efetivas.
Na ocasião, as organizadoras também lançaram a campanha com a hashtag #EuVotoEmNegra, voltada a incentivar o apoio a candidaturas de mulheres negras e ampliar sua participação política.
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via Agência Brasil