Ulaanbaatar (Mongólia) — 30/08/2026. A 17ª Conferência das Nações Unidas de Combate à Desertificação (COP17), encerrada em 28 de agosto, deixou organizações ambientais, membros da sociedade civil e especialistas decepcionados com a ausência de um acordo global vinculado para enfrentar secas.
Delegados optaram por postergar a decisão central sobre um mecanismo internacional contra secas para a próxima conferência, a COP18, que será realizada no Egito. Para representantes de instituições que acompanham o tema, essa postergação terá custos diretos para populações e economias vulneráveis.
Reações de especialistas
Rafael Giovanelli, do Instituto Escolhas, avaliou que os governos transferiram a responsabilidade para a próxima rodada de negociações, sem entregar medidas substanciais nesta edição. Segundo ele, a decisão de adiar a discussão compromete a construção de uma base sólida de ação.
Richard Lee, da Wetlands Internacional, destacou que a falta de consenso ocorreu em um momento de agravamento de eventos extremos: a Europa enfrentou secas históricas neste ano, os níveis do Rio Colorado, nos Estados Unidos, atingiram patamares recordes, e o fenômeno Super El Niño eleva o risco de secas severas do Sul da África à Amazônia. Para Lee, a expectativa de que esse contexto pressionasse os governos a agir não se confirmou.
Christine Colvin, especialista em políticas de água da WWF Global, afirmou que progressos podem vir de esforços coordenados entre alguns governos, a sociedade civil e organismos financeiros, mas advertiu que ações pontuais não substituem um acordo multilateral abrangente.
Por que um acordo é reivindicado
Países africanos vêm defendendo, há pelo menos três conferências, um mecanismo multilateral específico para secas. A proposta inclui apoio financeiro e técnico para que nações mais vulneráveis antecipem, se preparem e recuperem-se de eventos de escassez de água. Alegam que instrumentos existentes, como o Fundo Global para o Meio Ambiente (GEF), tratam de degradação de terras de forma ampla e não atendem às necessidades imediatas de resiliência à seca.
Na negociação, nações ricas resistiram à ideia de obrigações vinculantes e pressionaram por adesão voluntária. A União Europeia, por exemplo, mostrou relutância em assumir compromissos financeiros externos enquanto lida com seus próprios episódios recentes de seca.
Iniciativas lançadas na COP17
Apesar da falta de consenso global, representantes aproveitaram o encontro em Ulaanbaatar para anunciar programas e ferramentas que visam reduzir a vulnerabilidade à seca. Entre as novidades está o Mecanismo de Investimento para Resiliência à Seca (DRIF), criado pela Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação (UNCCD) em parceria com Luxemburgo e apoiado pela Aliança Internacional para a Resiliência à Seca (IDRA). O DRIF pretende mobilizar até US$ 400 milhões de fontes públicas e privadas para projetos vinculados à segurança hídrica, agricultura sustentável, soluções baseadas na natureza e restauração de terras.
Outra iniciativa foi a segunda fase do Observatório Internacional de Resiliência à Seca (IDRO), que apresentou o primeiro Índice de Resiliência à Seca (DRI), uma ferramenta projetada para ajudar países a medir sua capacidade de antecipar, preparar e adaptar-se a períodos de escassez.
Consequências e perspectivas
Especialistas alertam que adiar um acordo multilateral tem custo real: comunidades rurais e urbanos em áreas fragilizadas poderão enfrentar perdas econômicas e sociais maiores, enquanto países pobres ficam com menos instrumentos internacionais para financiamento e planejamento. Ao mesmo tempo, as iniciativas anunciadas na COP17 são vistas como passos importantes, mas insuficientes sem um marco global que coordene esforços, recursos e responsabilidades.
*O repórter viajou para a Mongólia a convite da Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação (UNCCD), após seleção entre jornalistas de diversos continentes.
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via Agência Brasil