Crise no Judiciário desvia foco de propostas eleitorais a menos de um mês do 1º turno, dizem entidades

Crise no Judiciário desvia foco de propostas eleitorais a menos de um mês do 1º turno, dizem entidades

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Por Alex Rodrigues — Brasília, 13/09/2026, 10:43

A menos de um mês do primeiro turno marcado para 4 de outubro de 2026, representantes de organizações da sociedade civil afirmam que a escalada da crise político-institucional concentrou a atenção pública nas disputas entre ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e nos desdobramentos da Operação Compliance Zero, lançada em novembro de 2025 pela Polícia Federal.

Segundo líderes consultados, a predominância desses assuntos na imprensa, nas redes sociais e no debate cotidiano tem reduzido o espaço para a apresentação e a discussão de propostas eleitorais sobre problemas estruturais do país.

Samira de Castro, presidenta da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), avaliou que o foco na crise do Poder Judiciário empurra para segundo plano o debate eleitoral e prejudica a capacidade da sociedade de avaliar plataformas dos candidatos.

Francilene Garcia, presidenta da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), disse que a agenda pré-eleitoral foi tomada por temas que não foram escolhidos pela população e que, por consequência, temas como ciência e políticas públicas essenciais — que demandam regras estáveis e orçamento previsível — ficaram em segundo plano.

Os entrevistados reconheceram a gravidade das novas informações relacionadas à Operação Compliance Zero e defenderam que as investigações sobre possíveis vínculos de autoridades com o ex-dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, sejam aprofundadas. Ao mesmo tempo, pediram que essa apuração não substitua o debate sobre as propostas de governo que os eleitores terão de escolher em 4 de outubro.

Daniel Cara, coordenador honorário da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, classificou as eleições como as mais relevantes desde a promulgação da Constituição de 1988, em razão de mudanças na geopolítica e na organização produtiva global. Ainda assim, afirmou que temas centrais — como desenvolvimento econômico, soberania, educação, ciência e tecnologia — estão marginalizados tanto na cobertura jornalística quanto nos programas de governo.

Rita Serrano, presidenta do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap), destacou prioridades da classe trabalhadora que vêm perdendo visibilidade, como o fim da escala 6×1, geração de emprego e renda, a regulamentação da negociação coletiva no serviço público (Projeto de Lei 1.893/2026), segurança pública e o aproveitamento de minerais críticos para o desenvolvimento econômico e preservação da soberania nacional.

Ela relatou que as centrais sindicais vinham obtendo avanços no Congresso até o fim de agosto, mas que a crise institucional recente paralisou ou retardou essas iniciativas, deixando sindicatos e parlamentares na tentativa de retomar um “pacto” sobre pautas sociais antes do pleito.

Márcio Astrini, secretário-executivo do Observatório do Clima, reforçou a centralidade das mudanças climáticas para o debate público, citando eventos climáticos extremos recentes, como seca na Amazônia e enchentes no Sul, e criticou que poucos candidatos tratem a crise climática como prioridade — alguns, inclusive, a negam.

Além disso, representantes de várias entidades ressaltaram a relevância estratégica dos minerais críticos e das terras raras para o futuro industrial e tecnológico do país. Eles apontaram que a recente aprovação, pelo Senado, do projeto que institui a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos — já encaminhado para sanção presidencial — torna o tema ainda mais urgente no debate sobre soberania e desenvolvimento.

Enquanto o setor produtivo enxerga potencial para avanço tecnológico com a nova política, lideranças indígenas exigem garantias socioambientais e o cumprimento da consulta prévia prevista na Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), para evitar violações de territórios tradicionais.

Alcebias Constantino, coordenador-executivo da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), afirmou que a exploração de minerais afeta diretamente as lutas pela demarcação e proteção das terras indígenas, condições essenciais para a garantia de direitos como saúde e educação.

Para ampliar sua representação nos espaços de decisão, a Apib anunciou o lançamento e apoio a 56 candidaturas: 33 para deputado estadual, 19 para deputado federal, 2 para senador, 1 para governador e 1 para suplência de senador. Constantino disse que, apesar da instabilidade política, o movimento segue mobilizado e pretende usar o pleito para eleger representantes comprometidos com as prioridades indígenas.

Ao final, as entidades ouvidas pedem que, mesmo com a necessidade de esclarecimentos sobre irregularidades e responsabilidades de agentes públicos, o país consiga retomar um debate amplo e detalhado sobre políticas públicas essenciais — de educação e ciência à resposta às mudanças climáticas e ao aproveitamento responsável de recursos estratégicos — para que os eleitores possam escolher com base em propostas concretas.

Leia também: Organizações de São Paulo lançam carta para que candidatos de 2026 se comprometam com a agroecologia

via Agencia Brasil

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