Um levantamento do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS) estima que os prejuízos à saúde provocados por apostas online onerem o Sistema Único de Saúde (SUS) em R$ 30,6 bilhões anualmente. O montante inclui gastos com tratamentos de depressão, transtornos de ansiedade e despesas associadas a mortes por suicídio.
Segundo o estudo, apenas 1% da arrecadação das operadoras de apostas é repassada ao Ministério da Saúde para ações que reduzam esses danos, parcela considerada insuficiente diante da magnitude do problema.
Em paralelo ao levantamento, os registros do SUS mostram crescimento na demanda por atendimento relacionado à dependência de jogos e apostas: nos últimos cinco anos houve aumento de 140% nas buscas por cuidados na rede pública.
Marcelo Kimati, diretor de Saúde Mental do Ministério da Saúde, afirma que a elevação da procura foi percebida em toda a Rede de Atenção Psicossocial. “Desde fevereiro de 2026, quando implantamos uma porta de entrada eletrônica para casos ligados a jogos e apostas, registramos cerca de 20 mil pessoas que se cadastraram após realizar um teste”, disse.
Para atender à demanda, o serviço de teleatendimento expandiu recentemente sua capacidade. O volume passou de 600 para até 100 mil teleatendimentos mensais, em parceria com a Agência Brasileira de Apoio à Gestão do SUS (AgSUS).
Outra iniciativa para reduzir acessos indevidos foi a plataforma de autoexclusão lançada pela Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda. A ferramenta já resultou no bloqueio de mais de 5 milhões de CPFs em sites de apostas autorizados pelo governo federal.
Mais de 1 milhão de usuários solicitaram a autoexclusão; quase metade desses pedidos teve como motivo reportado problemas de saúde mental associados ao jogo, segundo dados divulgados pelas autoridades.
Depoimentos e tratamento
Relatos de quem enfrentou a dependência mostram o impacto pessoal e social do problema. Gustavo Pereira, 24 anos, de Lages (SC), começou a apostar aos 18 e perdeu cerca de R$ 500 mil em seis anos. Ele conta que a autoexclusão foi determinante para interromper recaídas e hoje trabalha vendendo café nas ruas.
“A autoexclusão salvou minha vida. Recuperei a autoestima e a coragem de olhar nas pessoas”, afirma Gustavo, que mantém acompanhamento profissional.
Carla Xavier, 41 anos, participante de um grupo de apoio a jogadores compulsivos, ressalta a importância do suporte familiar para a recuperação. Ela está há mais de um ano sem apostar.
“Quando a família apoia e entende o que está acontecendo, fica mais fácil buscar ajuda. A parte mais difícil é aceitar que se trata de uma doença”, diz Carla.
A psicóloga Mariana Kehl, membro da Sociedade Brasileira de Psicologia, orienta que intervenções familiares devem ocorrer ao primeiro sinal de dependência: isolamento, alterações de humor e aumento de gastos são indicadores frequentes.
O psiquiatra forense Hewdy Lobo destaca que permissividade no controle do tempo de jogo por parte de responsáveis pode favorecer a progressão do vício em crianças e adolescentes. A advogada e especialista em direito digital Luana Mendes (conhecida como Dra. Gamer) complementa: é o comportamento — não apenas a quantidade de tempo — que define risco quando há prejuízos ao sono, ao rendimento escolar e à vida social.
O tratamento pode envolver psicoterapia e, em alguns casos, medicação. Além das opções presenciais, o SUS oferece teleatendimento psicológico pelo portal Meu SUS Digital, atendimento em unidades básicas de saúde (UBS) e nos centros de Atenção Psicossocial (CAPS), inclusive serviços para familiares.
Grupos de apoio, como Jogadores Anônimos e a rede paralela JOG-Anon para familiares, também atuam no acolhimento. O Centro de Valorização da Vida (CVV) mantém atendimento pela internet e pelo telefone 188.
Os especialistas reforçam que, diante do aumento da oferta de apostas online e do impacto financeiro e social apontado pelo estudo, políticas públicas integradas e ampliação de recursos para prevenção e tratamento são medidas centrais para reduzir danos.
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via Agência Brasil