São Paulo, 19/09/2026 — Matheus Crobelatti*
Um levantamento inédito realizado pela startup Egalite mostra que apenas 1,5% das vagas destinadas a pessoas com deficiência (PcDs) correspondem a cargos técnicos e de gestão. A pesquisa considerou os registros de 116 mil profissionais cadastrados e mais de 19 mil vagas ativas no portal Inclui PcD, plataforma da própria Egalite voltada à empregabilidade dessa população.
Segundo o estudo, a esmagadora maioria das oportunidades — 98,5% — concentra-se em funções operacionais. Mesmo assim, 31% das candidaturas espontâneas enviadas por profissionais com deficiência são para posições gerenciais e técnicas, indicando uma demanda por progressão na carreira que não encontra correspondência nas ofertas.
A pesquisa também identifica avanços em algumas organizações: metade das empresas presentes no portal Inclui PcD disponibiliza à população PcD todas as categorias de vagas, desde cargos de entrada até posições de liderança e especialistas, superando o cumprimento mínimo das cotas legais.
“Não existem cargos de liderança na mesma proporção que cargos de entrada”, afirma Djalma Scartezini, um dos fundadores da Egalite e embaixador e CEO da Rede Empresarial de Inclusão Social.
Scartezini ressalta a escassez de vagas de gerência voltadas à população com deficiência e, na condição de executivo com deficiência, diz que ainda não está satisfeito com o número de pares em cargos de direção. Ao mesmo tempo, afirma que observa crescimento desse contingente nas empresas.
Como exemplo de iniciativas que ampliam oportunidades, o executivo cita a última feira Inclui PcD promovida pela Egalite, que abriu cerca de 19 mil vagas — quase 4 mil delas direcionadas a especialistas, coordenadores e estágios iniciais de liderança.
Outro indicador preocupante do levantamento é a pretensão salarial mediana dos candidatos PcD: R$ 1.450, valor inferior ao salário mínimo em vigor (R$ 1.621). O dado aponta que muitos trabalhadores chegam aos processos seletivos dispostos a aceitar remunerações abaixo do piso legal.
O relatório atribui parte desse quadro a vieses de mercado que usam marcadores identitários — como deficiência, gênero, raça e orientação sexual — para reduzir a avaliação profissional. Scartezini observa que, em diversos casos, as próprias vagas destinadas a PcDs já são ofertadas com faixas salariais inferiores às praticadas no mercado.
Uma outra barreira apontada é a retração de vagas no modelo remoto e híbrido: segundo dados do portal Inclui PcD, a participação de vagas remotas e híbridas caiu de 28,4% em 2024 para apenas 0,8% em 2026. Para muitos profissionais com deficiência, o trabalho remoto elimina obstáculos relacionados à mobilidade urbana e ao transporte público inacessível.
“O modelo de trabalho remoto remove barreiras cruciais de mobilidade urbana e transporte público inacessível para pessoas com deficiência física”, afirma Guilherme Braga, identificado no levantamento como CEO da Egilate.
O estudo também destaca benefícios específicos do trabalho remoto para profissionais neurodivergentes: o ambiente doméstico pode funcionar como regulador sensorial, permitindo o controle de estímulos, a adaptação do espaço de trabalho e a redução da sobrecarga social.
Os números e depoimentos trazidos pela pesquisa evidenciam avanços pontuais na inclusão, mas reafirmam desafios estruturais para que pessoas com deficiência tenham acesso a trajetórias profissionais completas, com oportunidades reais de progressão a cargos técnicos e de liderança.
*Estagiário sob supervisão de Odair Braz Junior
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via Agência Brasil