Localizado na Rua Cândido Mendes, no bairro da Glória, zona sul do Rio de Janeiro, o Quilombo Urbano Ferreira Diniz — onde vivem 14 famílias — teve sua área total, incluindo o quintal e os casarões, tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) na semana anterior à publicação.
Mais do que preservar imóveis e árvores como coqueiro, goiabeira e paineira-rosa, a medida reconhece espaços de uso coletivo e referências culturais que atravessam gerações. O quintal se transformou em ponto de encontro e em polo gastronômico graças à tradicional Feijoada da Tia Cida (Maria Aparecida de Fátima Ferreira), servida às sextas-feiras e que ajuda a sustentar as famílias.
Trajetória da comunidade
As famílias Ferreira e Diniz ocupam o terreno desde a década de 1950, quando Maria Isabel Ferreira — descendente de pessoas escravizadas vindas de Minas Gerais — passou a morar no casarão principal ao se casar com Antônio Dias Pessanha, então zelador do prédio. O prédio, que já funcionou como hospedaria, foi ocupado e subdividido em moradias ao longo dos anos.
Em 2023, pela continuidade dos vínculos comunitários e práticas culturais ligadas ao passado colonial, o grupo foi reconhecido como quilombola pela Fundação Cultural Palmares. A partir da retomada das atividades após a pandemia, a feijoada ganhou visibilidade e atraiu moradores e visitantes, além de gerar renda e fortalecer ações locais.
Proteção e salvaguardas
O tombamento aprovado pelo Iphan inclui a elaboração, como etapa de salvaguarda, de um inventário das referências culturais e das manifestações da comunidade. Segundo o instituto, o imóvel constitui uma espécie de “ilha verde” entre prédios altos e resiste às pressões da gentrificação e do alto custo de vida na região.
Patricia Corrêa, superintendente do Iphan no Rio de Janeiro, afirmou que a proteção tem efeitos múltiplos: estabelece limites jurídicos contra demolições e intervenções que descaracterizem o local; consolida o reconhecimento territorial do espaço como bem cultural coletivo; afirma simbolicamente a presença histórica e social da população negra no centro urbano; e cumpre uma função reparatória diante do apagamento e das expulsões que afetaram comunidades negras em áreas valorizadas da cidade.
Desafios e próximos passos
Com o tombamento, a presidência da associação local, Érida Ferreira, espera acelerar o reconhecimento da posse coletiva do imóvel pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). O Incra informou que acompanha o processo, ainda em fase inicial. A regularização fundiária abriria acesso a programas de reforma do casarão, que hoje necessita de intervenções para melhorar as condições de moradia.
Para subsidiar a tramitação junto ao Incra, a Escola de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal Fluminense (UFF) ficará responsável por produzir um estudo técnico que reúna o histórico das famílias e descreva o modo de vida no terreno; o documento deve ser entregue pela comunidade até o final de 2026. A professora Ana Carmen Amorim Jara Casco, que acompanha a comunidade há três anos, destaca que o modo de vida coletivo — com cuidados compartilhados entre vizinhos e práticas culturais cotidianas — oferece lições sobre formas de sociabilidade distintas das observadas em condomínios e edifícios.
Vida comunitária
O quintal, além de sustento econômico, funciona como espaço onde crianças brincam, eventos religiosos e culturais são celebrados — como Folia de Reis e festas de São Jorge — e rodas de capoeira e samba acontecem. O casarão principal, de traços neoclássicos e pertencente ao conjunto de moradias de luxo construídas no início do século 20 na região, abriga as famílias em cômodos amplos que precisam de reformas.
Em reação ao tombamento, a comunidade realizou celebrações e programou uma roda de samba no sábado, 26 de setembro de 2026. Para os moradores, a medida do Iphan não apenas protege bens materiais, mas reconhece um patrimônio vivo e a continuidade de uma história enraizada na Glória.
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via Agência Brasil