Reportagem: Alex Rodrigues — Publicado em 23/09/2026 – 08:00 — Brasília
A menos de duas semanas do primeiro turno, marcado para 4 de outubro de 2026, muitos eleitores ainda não definiram em quem votar. A cobertura sobre o caso Master e a crise envolvendo o Supremo Tribunal Federal (STF) deslocaram parte do debate de propostas, segundo observações de especialistas consultados para este guia.
Com base em entrevistas com cientistas políticos, sociólogos e professores universitários, reunimos seis recomendações práticas para ajudar o eleitor a comparar programas, trajetórias e alinhamentos partidários, além de evitar armadilhas como candidaturas meramente simbólicas ou o chamado “efeito puxador de votos”.
1) Comece por você
Antes de analisar candidaturas, avalie suas prioridades pessoais e coletivas: a qual grupo social ou econômico você pertence? Quais questões públicas o preocupam mais? Quais valores e visões de mundo são essenciais para sua escolha? Essas respostas ajudam a confrontar promessas de campanha com interesses reais.
Dados do eleitorado mostram diferenças importantes: mulheres correspondem a 53% dos votantes, mas ocupam parcela reduzida das cadeiras legislativas — 15 das 81 vagas no Senado e 91 dos 513 deputados na atual legislatura — o que torna relevante verificar propostas dirigidas a segmentos específicos da população.
2) Entenda o papel de cada cargo
Conhecer as atribuições do cargo pleiteado evita frustrações e permite cobrar resultados compatíveis com as competências legais. Exemplos de responsabilidades essenciais:
- Presidente da República: direção do Poder Executivo federal, nomeação de ministros, comando das Forças Armadas, envio de propostas orçamentárias ao Congresso, sanção e veto de leis e celebração de tratados internacionais.
- Governadores: administração estadual, nomeação de secretários, gestão da segurança pública estadual, rede estadual de ensino e infraestrutura rodoviária estadual.
- Deputados: elaboração e modificação de leis, fiscalização do Executivo e participação na definição do orçamento (federal, estadual ou distrital conforme a casa).
- Senadores: representação dos estados no Congresso Nacional, votação de leis federais, sabatina de indicados a cargos públicos e julgamento de autoridades em algumas hipóteses.
Como observa a socióloga Débora Messemberg (UnB), é comum confundir iniciativa legislativa com execução de obras: parlamentares aprovam e destinam recursos, mas obras cabe ao Executivo efetivar.
3) Priorize ações concretas sobre promessas vagas
Avalie currículo, histórico de mandatos (quando houver), fontes de financiamento e apoios. Questões-chave a checar:
- Quem financia a campanha e quais setores apoiam o candidato?
- As propostas atacam as causas estruturais dos problemas ou são genéricas e de efeito comunicacional?
- Se o candidato já ocupou cargo público, como votou e que iniciativas apoiou na prática?
O professor Francisco Uribam Xavier de Holanda (UFC) lembra que grande parte das plataformas de campanha é construída com base em pesquisas eleitorais, nem sempre deixando claro quais interesses serão efetivamente atendidos. Documentos como declaração de bens e prestação de contas constam no sistema do Tribunal Superior Eleitoral: https://divulgacandcontas.tse.jus.br/divulga/#/home
4) Verifique o alinhamento partidário
Partidos e coligações costumam adotar orientações de bancada que influenciam votos no Legislativo. Por isso, além da trajetória individual do candidato, é importante conhecer o programa e as posições históricas da legenda, bem como suas alianças.
- Observe como o partido tem votado e quais pautas costuma apoiar;
- Analise a consistência ideológica e as parcerias com outras siglas;
- Considere se o partido tende a priorizar interesses de grupos específicos.
Essa avaliação ajuda a antecipar se o eleito terá liberdade para seguir os compromissos de campanha ou se será orientado pela disciplina partidária, como ressalta a cientista política Naiara Sandi de Almeida Alcantara (UFPA).
5) Atenção a puxadores de voto e ao sistema proporcional
Fenômenos como o “efeito Tiririca” mostram que candidatos de alta visibilidade podem levar outros filiados ao parlamento. Em 2010, Francisco Everaldo Oliveira Silva (Tiririca) recebeu mais de 1,35 milhão de votos e contribuiu para eleger colegas de legenda.
No sistema proporcional, o número de cadeiras que um partido conquista depende do quociente eleitoral — obtido ao dividir o total de votos válidos pelo número de vagas — e da soma dos votos dos candidatos da legenda. Em seguida, as vagas são preenchidas pelos candidatos mais votados do partido, observadas regras de votação mínima individual. Assim, votar apenas por uma celebridade pode resultar na eleição de nomes que o eleitor desconhece.
O cientista político Rodrigo Stumpf González (UFRGS) recomenda verificar a nominata do partido antes de decidir o voto.
6) Procedimentos e direitos no dia da votação (4 de outubro)
O primeiro turno de 2026 ocorrerá em 4 de outubro. Aproximadamente 158,7 milhões de eleitores estão aptos a votar em todo o país para escolher deputados federais, estaduais ou distritais, dois senadores por unidade federativa, governadores e presidente da República.
- É permitido levar para a cabine um papel com nomes e números dos candidatos; celulares e equipamentos que registrem imagens são proibidos na cabine — o eleitor pode deixar o aparelho com os mesários. A proibição do registro visual está em vigor desde 2009 e tem como objetivo proteger o sigilo do voto.
- Manifestação individual silenciosa (broches, adesivos, camisetas, bandeiras) é admitida; manifestações coletivas, ruidosas ou abordagens a eleitores são proibidas.
- Eleitor tem direito a se ausentar do trabalho pelo tempo necessário para votar, sem prejuízo salarial. Pessoas com 80 anos ou mais têm preferência para votar, independentemente da ordem de chegada.
- Pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida podem ser assistidas por alguém de sua escolha no momento de votar; existe ainda, em alguns casos, transporte organizado para eleitor com necessidades especiais (prazos e condições dependem de solicitação prévia).
Seguir essas orientações não garante um voto “perfeito”, mas amplia a capacidade de comparar candidaturas de forma criteriosa — especialmente em uma eleição em que o espaço para debate de propostas foi afetado por questões institucionais e midiáticas.
Para dúvidas sobre documentação, locais de votação e prestação de contas, consulte os canais oficiais da Justiça Eleitoral.
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via Agencia Brasil
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